Você conhece o exercício dos cinco dedos?

Você conhece ou já ouviu falar no “exercício dos cinco dedos”? Não? Pois deixe-me falar sobre ele. Walter Scott (1796-1861) foi um dos grandes pioneiros do Movimento de Restauração (Igrejas de Cristo). Foi muito amigo de Alexander Campbell desde quando se conheceram em 1821. Além de professor e editor, Scott alcançou proeminência como evangelista. Ele criou o “exercício dos cinco dedos” que é usado nas Igrejas de Cristo em todas as gerações que se seguiram até hoje.

Conta-se que ao chegar em uma vila ou povoado, Scott tinha por hábito ir até a escola, se aproximar das crianças e perguntar simpaticamente se elas queriam aprender “o exercício dos cinco dedos”. Como a resposta geralmente era positiva, ele continuava dizendo:

“Levantem a mão esquerda. Agora comecem pelo polegar e repitam: fé, arrependimento, batismo, perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo. Isso lhes ocupa os cinco dedos”.

Ele repetia o exercício várias vezes até que aprendessem. Depois mandava as crianças repetirem o "exercício dos cinco dedinhos" para seus pais em casa dizendo que um pregador estaria falando à noite sobre os "cinco dedinhos".

Com essa estratégia de evangelização e após um ano de trabalho incansável, o número de membros das igrejas da Associação Batista de Mahoney (naqueles tempos os Campbell estavam associados às Igrejas Batistas, o que durou até cerca de 1830), que estavam mais abertas aos "Reformadores" (“A Reforma Atual” ou “A Reforma Presente” era como o nosso Movimento ficou conhecido bem no início), havia multiplicado e seis novas igrejas haviam sido abertas. Confira o que o Dr. B. J. Humble escreveu sobre este período das igrejas da "Western Reserve" localizada em Ohio:

“Fé, arrependimento, batismo, remissão dos pecados e o dom do Espírito Santo – este era o ‘Evangelho Restaurado’ na pregação de Scott. O resultado foi um grande avivamento entre as Igrejas”.

O exercício dos cinco dedos para hoje

O Evangelho restaurado! Essa é a minha convicção! Essa é a tradição do Movimento de Restauração! Fé, arrependimento, batismo, perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo. Esse é o modelo das Igrejas de Cristo! Aqui cabem algumas perguntas. A Igreja de Cristo onde você congrega, prega o evangelho de Cristo em sua plenitude? Ela está comprometida com o DNA das igrejas do Novo Testamento e do nosso Movimento? Seus líderes conhecem e ensinam a história das Igrejas de Cristo? Não? Por quê? (confira as características das Igrejas de Cristo no artigo “Introdução à História do Movimento de Restauração de Stone e Campbell” no site www.movimentoderestauracao.com e compare com a sua congregação).

Sinceramente, por sua simplicidade, creio que o “Exercício dos Cinco Dedos” pode nos ajudar a compreender as boas notícias do Evangelho de Cristo e compartilhar também. Esta técnica pode ser usada com muita eficiência tanto pelos mais jovens como pelos mais velhos. Quer experimentar? Então façamos como o evangelista Walter Scott pedia. Levante sua mão esquerda e comece pelo dedo polegar: 

1. Dedo Polegar: Fé

“Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” – João 3:16 (memorize-o).

A fé é dom de Deus (Ef 2:8) e vem pelo ouvir a Palavra (Rm 10:13-15,17; At 4:4). É a certeza das coisas que se esperam, a convicção de fatos que não se vêem (Hb 11:1). Sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11:6). Fé é a obediência em ação (Tg 2:14-26) e deve ser confessada para a salvação (Rm 10:9-10; Mt 10:32-33; At 8:36-37). A fé traz segurança, paz ao coração do crente, descanso e gozo (Rm 8:16; 1Jo 4:13; 5:10; Jo 14:1; Mt 6:25-34; Rm 5:1; Hb 4:3; 1Pe 1:8). Pela fé somos enriquecidos pelo Espírito (Gl 3:5,14), santificados (At 26:18), guardados (1Pe 1:5; Rm 11:20), estabelecidos (Is 7:9), curados (Tg 5:15; At 14:9), andamos (2Co 5:7), superamos os desafios da vida (Rm 4:18-21; Hb 11:17-19,27). É absolutamente essencial à salvação (Jo 3:16; 8:24; 1Pe 1:18-21; At 10:43; 15:9; 16:30-31; Rm 6:17-18).

2. Dedo Indicador: Arrependimento

“Arrependam-se, pois, e voltem-se para Deus, para que os seus pecados sejam cancelados”  – Atos 3:19 (memorize-o).

O arrependimento foi o ápice da mensagem de João Batista (Mt 3:2; Mc 1:15), Jesus Cristo (Mt 4:17; Lc 13:3-5), Apóstolos (Mc 6:12), Pedro (At 2:38; 3:19) e Paulo (At 20:21; 26:20). É produzido no homem pela Palavra de Deus (Lc 16:30-31), pregação do Evangelho (Mt 12:41; Lc 24:47; At 2:37-38; 2Tm 2:25), bondade de Deus para conosco (Rm 2:4; 2Pe 3:9), correção do Senhor (Ap 3:19; Hb 12:10-11), crença na verdade (Jn 3:5ss), uma nova visão de Deus (Jó 42:5-6). Consiste em mudança de idéia em relação ao pecado, a Deus e a si mesmo (Rm 3:20; Sl 51:3,7; Jó 42:56; Lc 15:17-18), mudança de sentimento (Sl 51:1-2; 2Co 7:9-10), mudança da vontade (Mt 3:8,11; At 5:31; 20:21; Rm 2:4; 2Pe 3:9). São frutos do arrependimento: confissão dos pecados (Sl 32:5; 51:3-4; Lc 15:21; 1Jo 1:9), reparação dos erros cometidos contra alguém (Lc 19:8) e é absolutamente essencial à salvação (Lc 13:2-5).

3. Dedo Médio: Batismo

“Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova”  –  Romanos 6:4 (memorize-o).

O batismo é um mandamento perpétuo ordenado pelo Senhor Jesus (Mt 28:19), que ao ser batizado por João nos deixou o exemplo (Mt 3:5-6,13-17). No Novo Testamento batismo é imersão. Isso fica evidenciado pelo fato do batismo requerer água o suficiente para o candidato entrar e sair (At 10:47; Mt 3:13; Jo 3:23; Mt 3:5-6; At 8:36-39; Mc 1:10). Quem deve ser batizado? Quando? A Bíblia responde: Os crentes em Jesus (Mc 16:16; At 18:8), arrependidos dos seus pecados (At 2:38), imediatamente após a conversão (At 2:41; 8:12,35-38; 9:9,17-18; 10:44-48; 16:14-15,30-33). E o que diz o Novo Testamento sobre o propósito do batismo nas águas? Confira as seguintes passagens que relaciona aceitar Jesus com fé, arrependimento dos pecados e batismo nas águas com a salvação (At 2:38; 22:16; Mc 16:16; Rm 6:1-6; Cl 2:12; Gl 3:26-27). O batismo é uma condição para o recebimento do dom do Espírito Santo (At 2:38) e é parte da resposta do homem ao chamado de Deus para a salvação.

4. Dedo Anelar: Perdão dos Pecados

“Portanto, agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus” – Romanos 8:1 (memorize-o).

O perdão dos pecados é algo absolutamente tremendo. Segue imediatamente à conversão, incluindo o batismo nas águas. É o perdão da pena pelo pecado (Rm 4:7-8; 5:12-14; 6:23; 2Co 5:19) e o cancelamento da condenação (Rm 8:1,33-34). Traz paz com Deus (Rm 5:1; Ef 2:14-17), restabelecimento do favor de Deus (Rm 4:6; 2Co 5:21; 1Co 1:30), conduz a uma vida justa (Fp 1:11; 1Jo 3:7; Tg 2:14,17-26). Dá certeza do livramento da ira vindoura (Rm 5:9; 1Ts 1:10) e também dá a certeza da glorificação (Rm 8:30; Mt 13:43; Gl 5:5).

5. Dedo Mínimo: O Dom do Espírito Santo

“Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo” – Atos 2:38 (memorize-o).

Um dom é um presente, uma dádiva, algo que foi dado. O dom do Espírito Santo é um presente de Deus aos convertidos, pois segundo Atos 2:36-38 a fé em Jesus como Senhor e Cristo, o arrependimento dos pecados, o batismo nas águas e o consequente perdão dos pecados são pré-condições para recebê-lo. O Novo Testamento também mostra o dom do Espírito Santo sendo conscientemente desejado, buscado e recebido (At 1:4,14; 4:31; 8:14-17; 19:2-6). Ele não deve ser um dom automaticamente concedido aos crentes, ou seja, ele não pode ser confundido com a habitação do Espírito, como crêem muitos. Confira a seguir outros termos bíblicos para esta experiência, além de “o dom do Espírito Santo”: ficar cheio do Espírito Santo (At 2:4; Ef 5:18), receber o Espírito Santo (At 8:17; 10:47), o Espírito Santo descendo sobre (At 10:44; 11:15), batismo com o Espírito Santo (Mt 3:11; At 1:5), ser derramado o Espírito Santo (At 2:17-18; 10:45).

Conclusão

Nós fazemos parte da Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo por toda a terra. E dentro desta irmandade universal a nossa comunhão (Igrejas de Cristo / Cristãs / Discípulos), que tem DNA e identidade própria, é chamada para pregar o Evangelho em toda a sua plenitude e a unidade do povo de Deus. Um dos nossos mais antigos lemas refletem muito bem isso: “Não somos os únicos cristãos, mas simplesmente cristãos”. Portanto, devemos continuamente olhar para o passado, para as nossas tradições bíblicas, apostólicas e históricas. Só assim compreenderemos como as nossas tradições nos moldaram. E ao mantê-las estaremos, dentro do mundo religioso “globalizado”, preservando o nosso DNA, a nossa identidade. Sem isso deixaremos de ser “Igreja de Cristo”, ainda que tenhamos mantido esse nome ou tenhamos uma gênese no Movimento que a originou.

O Movimento de Restauração é contínuo, ele não pode parar. Há entre nós muitas coisas que precisam ser deixadas e outras que precisam ser restauradas. Tenhamos o mesmo espírito que tiveram os pioneiros. Para concluir, faço minhas as palavras do apóstolo Paulo:

 “Portanto, irmãos, permaneçam firmes e apeguem-se às tradições que lhes foram ensinadas” (2Tessonicenses 2:15).

Essa é a minha missão e apelo dentro da nossa comunhão. Não podemos vacilar, somos do Movimento de Restauração, somos das Igrejas de Cristo! Temos um DNA e vamos preservá-lo! Podemos contar com você?

Pedro Agostinho Jr.,

Pastor da Igreja de Cristo.

Fontes e créditos:
A imagem postada acima foi copiada da “The Encyclopedia of the Stone-Campbell Movement” e é uma cortesia da Disciples of Christ Historical Society para a obra citada. Originalmente foi publicada em uma mini-história da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo) em 1974.

SOTO, Fernando. La Reforma Presente : Literature and Teaching Ministries, 1997, pág. 89.

HUMBLE. B. J. “La Historia de La Restauración” - - disponível na Internet, pág. 17.

FOSTER, A. Douglas. The Encyclopedia of the Stone-Campbell Movement. Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 2004. pages 338-339.