Movimento de Restauração: A Igreja de Cristo de Volta às Origens - Nasce o Movimento de Restauração

Nasce o Movimento de Restauração

O Movimento de Restauração surgiu no início do século XIX, em várias regiões dos Estados Unidos. Em Kentucky, com o presbiteriano Barton W. Stone (1772-1844); no oeste da Pensilvânia, com os também presbiterianos Thomas Campbell (1763-1854) e Alexandre Campbell (1788-1866), na Pensilvânia e Ohio, com o evangelista batista Walter Scott (1796-1861); na Virgínia e Carolina do Norte, com o metodista James O’Kelly (1735-1826) e, na Nova Inglaterra, com os batistas Abner Jones (1772-1841) e Elias Smitt (1769-1846) (FIFE, 2012, site).

Foram vários os fatores que levaram ao surgimento do movimento: uma forte presença do pensamento iniciado no século XVI com a reforma protestante; o estado americano ainda com um estilo de vida natural (sem sofisticação industrial) que estimulava a hábitos primitivos; mas o principal foi o anseio e o forte compromisso pela liberdade política e religiosa vivida pelos americanos naquele momento. Esses fatores foram tão determinantes para o surgimento do Movimento de Restauração, que surgiram simultaneamente em quatro localidades distintas, sem haver conhecimento e comunicação entre si, dos seus principais fundadores. E todos eles tinham em comum o ideal de liberdade e a restauração do cristianismo primitivo (ALLEM, 1998, p. 109).

Elias Smitt, oriundo da Igreja Batista Separatista e radicado na Virgínia, em meados de 1790, lutava por uma igreja cujos membros fossem simplesmente cristãos, e não sofressem nenhuma influência da tradição humana. O que se constatou posteriormente é que não era possível criar qualquer movimento sem que se viesse a se encaixar e m algum tipo de tradição, pois até mesmo o fato de não querer pertencer a alguma tradição já se enquadraria na tradição dos que não querem pertencer a nenhuma tradição (ALLEM,
1998, p. 110).

James O’Kelly, radicado na Virgínia e Carolina do Norte, deu sua importante contribuição para o surgimento do Movimento de Restauração nessa região. James O’Kelly era pregador metodista itinerante e discordava da forma que seu Bispo, Francis Asbury (1745-1816), dirigia a Igreja Metodista. Esse desentendimento se agravou ao ponto de O’Kelly juntamente com outros ministros se retirarem e fundarem uma igreja colocando o nome de Metodista Republicana. Posteriormente, entenderam que deveriam se chamar simplesmente cristãos (ALLEM, 1998, p. 110).

Por ter pertencido aos Batistas Separatistas, Smith havia sido profundamente influenciado pelo desejo de restauração da igreja. Defendia que a igreja deveria se desvencilhar de toda e qualquer tradição, de forma que seus membros viessem a ser reconhecidos apenas como cristãos. Com isso atraiu um grande número de seguidores os quais, mais tarde, se uniram aos seguidores de James O’Kelly e formaram a Liga Cristã, que por sua vez se uniu à Igreja de Cristo Unida, grupo que recebeu grande influência dos puritanos ingleses (ALLEM, 1998, p. 110).

Impulsionado também pelo desejo de liberdade, surge no Kentucky, um movimento cristão, tendo como principal líder, o presbiteriano Barton W. Stone. Seu rompimento com a Igreja Presbiteriana se deu, entre outros motivos, por sua discordância do ponto de vista calvinista da predestinação estrita. Desligou-se, em 1803, juntamente com mais outros colegas, para fundarem seu próprio presbitério que se chamou Presbitério de Springfield. Em 1804, a exemplo de O’Kelly, e também convencido por Ricce Haggard


(1769-1819), dissolveu aquele presbitério para serem chamados apenas de cristãos

(ALLEM, 1998, p. 111).


O Movimento de Restauração ligado a Stone, avançou principalmente nas regiões de Kentucky, Tennessee, norte do Alabama e sul de Ohio, e seus principais adeptos eram oriundos dos Batistas Separatistas. Além da ênfase na liberdade cristã e do controle de poder da igreja, os seguidores de Stone buscavam uma total separação do mundo, tendo como referência a igreja primitiva. Mas com receio de que sua liberdade fosse comprometida, não se aprofundavam na prática do Novo Testamento, e se ocupavam mais em abolir as tradições (ALLEM, 1998, p. 111).

Para os seguidores de Stone, a liberdade era ponto fundamental. E a forma de garanti-la era combatendo a tradição, os clérigos, e até mesmo, a teologia oriunda da tradição reformada. Para eles, era mais importante se concentrarem no estilo de vida dos cristãos do primeiro século. Stone foi tão radical na busca pela liberdade e avesso às tradições que, até mesmo, o batismo que era consenso entre todos, era deixado segundo o entendimento de cada um (ALLEM, 1998, p. 111).

Stone compartilhava da ideia de que o reino milenar de Cristo estava próximo, mas entendia que a unidade da igreja era pré-requisito para que fosse estabelecido. Ao contrário de outros seguimentos cristãos daquela época, os stoneítas acreditavam que o reino milenar de Cristo só se concretizaria quando a igreja fosse restaurada aos padrões da igreja primitiva (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

Esse princípio de unidade na liberdade, defendido por Stone, se tornará de grande importância para o Movimento de Restauração durante o seu desenvolvimento. O tema “unidade” se tornará uma das principais bandeiras da Igreja de Cristo oriund a, desse movimento. Stone e seus seguidores argumentavam que os cristãos, que faziam parte das diversas denominações, deveriam sair delas e se reunirem em torno de um fundamento apostólico que restaurasse a igreja primitiva. Só assim o reino milenar de Cristo seria de fato estabelecido.

Outro movimento cristão e, provavelmente, o mais importante para construção do Movimento de Restauração foi o que teve como líderes Thomas Campbell e seu filho, Alexander Campbell. Thomas Campbell, nascido na Irlanda, pertencia à Igreja Presbiteriana Separatista, mudou-se para a Pensilvânia em 1807, e orientado por sua igreja, pregava o evangelho naquela região. Mas, por ter comunhão com presbiterianos de outras tendências teológicas ao ponto juntos participarem da santa ceia, foi excluído (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

Thomas Campbell, juntamente com outras pessoas que tinham pensamento comum ao seu, formaram um grupo de estudos chamado Associação Cristã de Washington o qual criou um documento (A Declaração e Mensagem) cujo teor tinha como síntese o princípio: “Onde a Bíblia fala, nós falamos, onde ela cala, nós calamos”, Campbell não planejava criar uma nova denominação, mas a união de todos os cristãos sobre essa base bíblica, sem acrescentar provas de credos ou ritual (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

Campbell se viu diante de um grande desafio: como estabelecer a unidade cristã diante de um intenso pluralismo religioso? Influenciado pelos puritanos, buscava restaurar o cristianismo primitivo, mas sem abrir mão da unidade cristã, sem a qual essa restauração não seria consolidada. Campbell entendia que restaurando o cristianismo primitivo, desejo comum entre várias correntes cristãs, viabilizaria a unidade cristã (ALLEM, 1998, p. 114).

Em 1809, chega à América o filho de Thomas, Alexander Campbell, que assume a liderança do movimento, tendo como valioso instrumento um Jornal, o Batista Cristão, através do qual propagava sua mensagem (ALLEM, 1998, p. 114).

Alexandre Campbell recebeu forte influência do pensador inglês, John Locke (1632-1704) de quem fora estudioso durante boa parte de sua vida. Locke defendia a tolerância e era inimigo de qualquer imposição religiosa; a única arma própria da religião é sua razoabilidade essencial (WALKER, 1967, vol. 2, p. 169). Influenciado por Locke, Campbell defendia a reconstrução racional e sistemática das comunidades apostólicas. Campbell entendia que era fundamental a distinção entre o que era essencial e o não essencial no cristianismo primitivo. Considerava que práticas, como ósculo santo e lava- pés, pertenciam à categoria não essencial, enquanto a autonomia congregacional, a pluralidade de presbítero, a comunhão semanal, e o batismo por imersão, seriam práticas essenciais (ALLEM, 1998, p. 114).

Embora a Alexandre Campbell tenha se fixado na Pensilvânia, sua mensagem se espalhou para outras regiões, inclusive as influenciadas por Barton Stone, mas Campbell consolidou sua liderança em 1823, após um debate com o presbiteriano W. L. McCalla (1788-1859) a respeito do batismo. Esse evento foi fundamental para a fusão desses dois seguimentos, tanto o de Stone como o de Campbell. Stone percebeu, na mensagem de Campbell, um complemento para ideias que defendia. Os seguidores de Stone encontraram na mensagem de Campbell, uma estrutura clara e racional do cristianismo primitivo (ALLEM, 1998, p. 115).

Se, por um lado, Barton Stone concentrava-se no ideal de restaurar o cristianismo primitivo sem abrir mão da liberdade, por outro lado, Campbell aprofunda-se na busca da unidade, deixando a restauração do cristianismo primitivo em segundo plano. Isso levou a uma divisão no movimento, criando pelo menos duas tradições: Os Discípulos, ligados ao pensamento ecumênico de Campbell e localizados na região noroeste; e as igrejas de Cristo, fiéis ao ideal restauracionista de Stone, localizadas na região sul (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

A seguir, realizamos uma viagem na história da igreja, ident ificando os movimentos cristãos que, de certa forma, tiveram posições restauracionistas semelhantes, ou que exerceram influência sobre o Movimento de Restauração do século XIX.