Movimento de Restauração: A Igreja de Cristo de Volta às Origens - Restauração na Reforma Protestante e outros movimentos

 

Restauração na Reforma Protestante e outros movimentos

Havia um sentimento quase que generalizado de que a igreja medieval, com suas tradições e normas, foi, ao longo do tempo, se distanciando do cristianismo primitivo. Era necessário descomplicar e desonerar o acesso do ser humano a Deus. O ponto principal que a Reforma buscou restaurar foi a autoridade da Bíblia. Houve uma valorização acentuada da Bíblia e uma negação da autoridade da tradição da igreja e da autoridade papal.

Esse conceito de “somente a Bíblia” tem sido comum nos diversos movimentos restauracionistas e não foi diferente na Reforma Protestante. Lutero declarou:

A menos que eu seja convencido pelas escrituras e pela razão simples, eu não aceito as autoridades de papas e concílios, porque eles tem se contradito mutuamente, minha consciência está cativa à Palavra de Deus (NOLL, 1997, p. 160).

Aqui há algo em comum com o Movimento de Restauração dos Campbells, quando afirma que “onde a Bíblia fala, falamos, onde a Bíblia cala, calamos”.

Da mesma forma, UlrichZwínglio (1484-1531), um dos fundadores da teologia reformada, depois de se apaixonar pelo “novo ensino” e se tornar mestre pela Universidade da Basiléia e exercer o sacerdócio por doze anos, afirma:

Durante a minha juventude, eu me dediquei ao aprendizado das coisas humanas tanto quanto o fizeram outros da minha idade. Depois comecei a me dedicar inteiramente às escrituras e então à filosofia e à teologia dos eruditos, que conflitavam com aquelas, constantemente me apresentando dificuldades. Finalmente, porém, eu cheguei a uma conclusão – à qual, também me conduziram as Escrituras – e decidi: Você deve jogar fora tudo isso e aprender a respeito da vontade de Deus diretamente da sua própria Palavra (ALLEM, 1998, p. 42).

À medida que Zwínglio se aprofunda nesse conceito de “somente as escrituras” provoca gradativas mudanças na catedral de Zurique, onde se tornou pregador, ao ponto de retirar todas as estátuas, relíquias, quadros e utensílios do altar, além de destruir os órgãos e abolir as roupas sacerdotais.

Chegou a proibir qualquer forma de expressão musical, mesmo sendo habilidoso músico, baseado no princípio de que tudo aquilo que a Bíblia não ordene explicitamente, deve ser proibido. Só abriu mão do princípio “sola scriptura” com relação ao batismo infantil. Mesmo entendendo que não havia precedentes bíblicos, realizava o batismo infantil por entender que a igreja não poderia ser uma ilha, composta apenas de cristãos adultos professos e comprometidos. Também pesou o fato de não querer romper com a igreja oficial.

Inspirado em Zwínglio, Heinrich Bullinger (1504-1575), seu sucessor em Zurique, prosseguiu com a ênfase no precedente bíblico principalmente com relação à proibição de instrumentos musicais no culto. Isso fica claro quando escreve:

A utilização de órgãos nas igrejas não é uma instituição particularmente antiga, principalmente por estas paragens. Desde que eles não estão de acordo com os ensinos apostólicos, os órgãos da grande catedral foram destruídos em 9 de dezembro deste ano de 1527. Assim, desta data em diante, não se desejam mais cânticos nem órgãos na igreja.” Em outro momento afirmou: “A igreja não deveria apegar-se a nenhum outro padrão além daqueles transmitidos e estabelecidos pelo Senhor e pelos apóstolos, e deveria permanecer sem mudanças (ALLEM, 1998, p. 46).

No tocante à proibição de música durante o culto promovida por Zwínglio, encontra-se semelhança no Movimento de Restauração do século XIX, pois, já no início do século XX, houve uma divisão no movimento motivado por opiniões divergentes com relação a instrumentos musicais. Uns entendiam que não havia menção no Novo Testamento de prática de instrumentos musicais no culto. A partir daí passou a existir o grupo conhecido como Igreja de Cristo não instrumental.

Outros aspectos que o Movimento de Restauração e a Reforma Protestante têm em comum são: Autoridade da Bíblia, o forte interesse de restaurar o cristianismo primitivo, o anti-tradicionalismo, e a defesa de que cada cristão deve ter acesso ao conteúdo bíblico.