Movimento de Restauração: A Igreja de Cristo de Volta às Origens

Resumo
O Movimento de Restauração surgiu nos Estados Unidos na virada do século XIX, onde, pelo menos, quatro movimentos cristãos liderados por James O’Kelly, Elias Smith, Barton W. Stone, Thomas Campbell e Alexandre Campbell, tiveram como objetivo principal restaurar o cristianismo primitivo. O’Kelly, Elias Smith e Stone levantaram a bandeira da liberdade cristã.

Thomas e Alexandre Campbell colocaram em debate o tema da unidade cristã. Como os valdenses, anabatistas, reformadores, anglicanos e puritanos, esses quatro líderes desejavam profundamente restaurar o estilo de vida cristã do primeiro século. Após 140 anos de sua fundação, o Movimento de Restauração chega e se desenvolve no Brasil, trazido por David Sanders e outros missionários.

Palavras-chave: Movimento de Restauração; Igreja de Cristo; Reforma da Igreja; Alexandre Campbell; Barton Stone.

Por: Gezo Rodrigues

 

* Graduando em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, matrícula 166920. Trabalho de Conclusão de Curso com vistas à obtenção de grau de Bacharel em Teologia, sob a orientação do Prof. Dr. Douglas Nassif Cardoso – Junho de 2012.


Introdução
A presente pesquisa se refere ao movimento cristão que surge no início do século XIX, posteriormente chamado de Movimento de Restauração, e que nasce com a finalidade de restaurar o cristianismo primitivo e, ao mesmo tempo, estabelecer e manter a unidade no vasto e plural seguimento religioso da época.

Abordar também quais os motivos que levaram diversos movimentos menores a se fundirem para formação desse movimento, qual a ênfase de cada um e por que decidiram se tornar um só seguimento. Quais eram os anseios de seus líderes e o que havia em comum entre eles.

O presente relato é relevante porque pretende mostrar qual a resposta dada pelo cristianismo do século XIX aos antigos conflitos entre grupos cristãos, apontando alternativas de convivência pacífica e harmoniosa, bem como amenizar o peso religioso exigido pelas instituições cristãs presentes na Nova Inglaterra.

Em segundo plano fizemos uma viagem pela história, buscando em cada fase do cristianismo moderno, paralelos com outros movimentos que almejaram e trabalharam pelo retorno ao cristianismo primitivo. Abordar o que esse movimento tem em comum com a Reforma Protestante, a Tradição Reformada, a Reforma Inglesa e outros movimentos históricos.

Por fim, produzimos um relato sobre como o Movimento de Restauração chega e se desenvolve no Brasil. Relatamos como David Sanders e outros missionários se estabeleceram a partir da região centro-oeste e avançaram para outros estados brasileiros. Ao final, apresentamos um sucinto relatório sobre as Igrejas de Cristo (nome adotado pelo Movimento de Restauração no Brasil), informando, com alguns números, seu atual alcance.


Nasce o Movimento de Restauração

O Movimento de Restauração surgiu no início do século XIX, em várias regiões dos Estados Unidos. Em Kentucky, com o presbiteriano Barton W. Stone (1772-1844); no oeste da Pensilvânia, com os também presbiterianos Thomas Campbell (1763-1854) e Alexandre Campbell (1788-1866), na Pensilvânia e Ohio, com o evangelista batista Walter Scott (1796-1861); na Virgínia e Carolina do Norte, com o metodista James O’Kelly (1735-1826) e, na Nova Inglaterra, com os batistas Abner Jones (1772-1841) e Elias Smitt (1769-1846) (FIFE, 2012, site).

Foram vários os fatores que levaram ao surgimento do movimento: uma forte presença do pensamento iniciado no século XVI com a reforma protestante; o estado americano ainda com um estilo de vida natural (sem sofisticação industrial) que estimulava a hábitos primitivos; mas o principal foi o anseio e o forte compromisso pela liberdade política e religiosa vivida pelos americanos naquele momento. Esses fatores foram tão determinantes para o surgimento do Movimento de Restauração, que surgiram simultaneamente em quatro localidades distintas, sem haver conhecimento e comunicação entre si, dos seus principais fundadores. E todos eles tinham em comum o ideal de liberdade e a restauração do cristianismo primitivo (ALLEM, 1998, p. 109).

Elias Smitt, oriundo da Igreja Batista Separatista e radicado na Virgínia, em meados de 1790, lutava por uma igreja cujos membros fossem simplesmente cristãos, e não sofressem nenhuma influência da tradição humana. O que se constatou posteriormente é que não era possível criar qualquer movimento sem que se viesse a se encaixar e m algum tipo de tradição, pois até mesmo o fato de não querer pertencer a alguma tradição já se enquadraria na tradição dos que não querem pertencer a nenhuma tradição (ALLEM,
1998, p. 110).

James O’Kelly, radicado na Virgínia e Carolina do Norte, deu sua importante contribuição para o surgimento do Movimento de Restauração nessa região. James O’Kelly era pregador metodista itinerante e discordava da forma que seu Bispo, Francis Asbury (1745-1816), dirigia a Igreja Metodista. Esse desentendimento se agravou ao ponto de O’Kelly juntamente com outros ministros se retirarem e fundarem uma igreja colocando o nome de Metodista Republicana. Posteriormente, entenderam que deveriam se chamar simplesmente cristãos (ALLEM, 1998, p. 110).

Por ter pertencido aos Batistas Separatistas, Smith havia sido profundamente influenciado pelo desejo de restauração da igreja. Defendia que a igreja deveria se desvencilhar de toda e qualquer tradição, de forma que seus membros viessem a ser reconhecidos apenas como cristãos. Com isso atraiu um grande número de seguidores os quais, mais tarde, se uniram aos seguidores de James O’Kelly e formaram a Liga Cristã, que por sua vez se uniu à Igreja de Cristo Unida, grupo que recebeu grande influência dos puritanos ingleses (ALLEM, 1998, p. 110).

Impulsionado também pelo desejo de liberdade, surge no Kentucky, um movimento cristão, tendo como principal líder, o presbiteriano Barton W. Stone. Seu rompimento com a Igreja Presbiteriana se deu, entre outros motivos, por sua discordância do ponto de vista calvinista da predestinação estrita. Desligou-se, em 1803, juntamente com mais outros colegas, para fundarem seu próprio presbitério que se chamou Presbitério de Springfield. Em 1804, a exemplo de O’Kelly, e também convencido por Ricce Haggard


(1769-1819), dissolveu aquele presbitério para serem chamados apenas de cristãos

(ALLEM, 1998, p. 111).


O Movimento de Restauração ligado a Stone, avançou principalmente nas regiões de Kentucky, Tennessee, norte do Alabama e sul de Ohio, e seus principais adeptos eram oriundos dos Batistas Separatistas. Além da ênfase na liberdade cristã e do controle de poder da igreja, os seguidores de Stone buscavam uma total separação do mundo, tendo como referência a igreja primitiva. Mas com receio de que sua liberdade fosse comprometida, não se aprofundavam na prática do Novo Testamento, e se ocupavam mais em abolir as tradições (ALLEM, 1998, p. 111).

Para os seguidores de Stone, a liberdade era ponto fundamental. E a forma de garanti-la era combatendo a tradição, os clérigos, e até mesmo, a teologia oriunda da tradição reformada. Para eles, era mais importante se concentrarem no estilo de vida dos cristãos do primeiro século. Stone foi tão radical na busca pela liberdade e avesso às tradições que, até mesmo, o batismo que era consenso entre todos, era deixado segundo o entendimento de cada um (ALLEM, 1998, p. 111).

Stone compartilhava da ideia de que o reino milenar de Cristo estava próximo, mas entendia que a unidade da igreja era pré-requisito para que fosse estabelecido. Ao contrário de outros seguimentos cristãos daquela época, os stoneítas acreditavam que o reino milenar de Cristo só se concretizaria quando a igreja fosse restaurada aos padrões da igreja primitiva (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

Esse princípio de unidade na liberdade, defendido por Stone, se tornará de grande importância para o Movimento de Restauração durante o seu desenvolvimento. O tema “unidade” se tornará uma das principais bandeiras da Igreja de Cristo oriund a, desse movimento. Stone e seus seguidores argumentavam que os cristãos, que faziam parte das diversas denominações, deveriam sair delas e se reunirem em torno de um fundamento apostólico que restaurasse a igreja primitiva. Só assim o reino milenar de Cristo seria de fato estabelecido.

Outro movimento cristão e, provavelmente, o mais importante para construção do Movimento de Restauração foi o que teve como líderes Thomas Campbell e seu filho, Alexander Campbell. Thomas Campbell, nascido na Irlanda, pertencia à Igreja Presbiteriana Separatista, mudou-se para a Pensilvânia em 1807, e orientado por sua igreja, pregava o evangelho naquela região. Mas, por ter comunhão com presbiterianos de outras tendências teológicas ao ponto juntos participarem da santa ceia, foi excluído (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

Thomas Campbell, juntamente com outras pessoas que tinham pensamento comum ao seu, formaram um grupo de estudos chamado Associação Cristã de Washington o qual criou um documento (A Declaração e Mensagem) cujo teor tinha como síntese o princípio: “Onde a Bíblia fala, nós falamos, onde ela cala, nós calamos”, Campbell não planejava criar uma nova denominação, mas a união de todos os cristãos sobre essa base bíblica, sem acrescentar provas de credos ou ritual (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

Campbell se viu diante de um grande desafio: como estabelecer a unidade cristã diante de um intenso pluralismo religioso? Influenciado pelos puritanos, buscava restaurar o cristianismo primitivo, mas sem abrir mão da unidade cristã, sem a qual essa restauração não seria consolidada. Campbell entendia que restaurando o cristianismo primitivo, desejo comum entre várias correntes cristãs, viabilizaria a unidade cristã (ALLEM, 1998, p. 114).

Em 1809, chega à América o filho de Thomas, Alexander Campbell, que assume a liderança do movimento, tendo como valioso instrumento um Jornal, o Batista Cristão, através do qual propagava sua mensagem (ALLEM, 1998, p. 114).

Alexandre Campbell recebeu forte influência do pensador inglês, John Locke (1632-1704) de quem fora estudioso durante boa parte de sua vida. Locke defendia a tolerância e era inimigo de qualquer imposição religiosa; a única arma própria da religião é sua razoabilidade essencial (WALKER, 1967, vol. 2, p. 169). Influenciado por Locke, Campbell defendia a reconstrução racional e sistemática das comunidades apostólicas. Campbell entendia que era fundamental a distinção entre o que era essencial e o não essencial no cristianismo primitivo. Considerava que práticas, como ósculo santo e lava- pés, pertenciam à categoria não essencial, enquanto a autonomia congregacional, a pluralidade de presbítero, a comunhão semanal, e o batismo por imersão, seriam práticas essenciais (ALLEM, 1998, p. 114).

Embora a Alexandre Campbell tenha se fixado na Pensilvânia, sua mensagem se espalhou para outras regiões, inclusive as influenciadas por Barton Stone, mas Campbell consolidou sua liderança em 1823, após um debate com o presbiteriano W. L. McCalla (1788-1859) a respeito do batismo. Esse evento foi fundamental para a fusão desses dois seguimentos, tanto o de Stone como o de Campbell. Stone percebeu, na mensagem de Campbell, um complemento para ideias que defendia. Os seguidores de Stone encontraram na mensagem de Campbell, uma estrutura clara e racional do cristianismo primitivo (ALLEM, 1998, p. 115).

Se, por um lado, Barton Stone concentrava-se no ideal de restaurar o cristianismo primitivo sem abrir mão da liberdade, por outro lado, Campbell aprofunda-se na busca da unidade, deixando a restauração do cristianismo primitivo em segundo plano. Isso levou a uma divisão no movimento, criando pelo menos duas tradições: Os Discípulos, ligados ao pensamento ecumênico de Campbell e localizados na região noroeste; e as igrejas de Cristo, fiéis ao ideal restauracionista de Stone, localizadas na região sul (WALKER, 1980, vol. 2, p. 275).

A seguir, realizamos uma viagem na história da igreja, ident ificando os movimentos cristãos que, de certa forma, tiveram posições restauracionistas semelhantes, ou que exerceram influência sobre o Movimento de Restauração do século XIX.


 

Restauração na Reforma Protestante e outros movimentos

Havia um sentimento quase que generalizado de que a igreja medieval, com suas tradições e normas, foi, ao longo do tempo, se distanciando do cristianismo primitivo. Era necessário descomplicar e desonerar o acesso do ser humano a Deus. O ponto principal que a Reforma buscou restaurar foi a autoridade da Bíblia. Houve uma valorização acentuada da Bíblia e uma negação da autoridade da tradição da igreja e da autoridade papal.

Esse conceito de “somente a Bíblia” tem sido comum nos diversos movimentos restauracionistas e não foi diferente na Reforma Protestante. Lutero declarou:

A menos que eu seja convencido pelas escrituras e pela razão simples, eu não aceito as autoridades de papas e concílios, porque eles tem se contradito mutuamente, minha consciência está cativa à Palavra de Deus (NOLL, 1997, p. 160).

Aqui há algo em comum com o Movimento de Restauração dos Campbells, quando afirma que “onde a Bíblia fala, falamos, onde a Bíblia cala, calamos”.

Da mesma forma, UlrichZwínglio (1484-1531), um dos fundadores da teologia reformada, depois de se apaixonar pelo “novo ensino” e se tornar mestre pela Universidade da Basiléia e exercer o sacerdócio por doze anos, afirma:

Durante a minha juventude, eu me dediquei ao aprendizado das coisas humanas tanto quanto o fizeram outros da minha idade. Depois comecei a me dedicar inteiramente às escrituras e então à filosofia e à teologia dos eruditos, que conflitavam com aquelas, constantemente me apresentando dificuldades. Finalmente, porém, eu cheguei a uma conclusão – à qual, também me conduziram as Escrituras – e decidi: Você deve jogar fora tudo isso e aprender a respeito da vontade de Deus diretamente da sua própria Palavra (ALLEM, 1998, p. 42).

À medida que Zwínglio se aprofunda nesse conceito de “somente as escrituras” provoca gradativas mudanças na catedral de Zurique, onde se tornou pregador, ao ponto de retirar todas as estátuas, relíquias, quadros e utensílios do altar, além de destruir os órgãos e abolir as roupas sacerdotais.

Chegou a proibir qualquer forma de expressão musical, mesmo sendo habilidoso músico, baseado no princípio de que tudo aquilo que a Bíblia não ordene explicitamente, deve ser proibido. Só abriu mão do princípio “sola scriptura” com relação ao batismo infantil. Mesmo entendendo que não havia precedentes bíblicos, realizava o batismo infantil por entender que a igreja não poderia ser uma ilha, composta apenas de cristãos adultos professos e comprometidos. Também pesou o fato de não querer romper com a igreja oficial.

Inspirado em Zwínglio, Heinrich Bullinger (1504-1575), seu sucessor em Zurique, prosseguiu com a ênfase no precedente bíblico principalmente com relação à proibição de instrumentos musicais no culto. Isso fica claro quando escreve:

A utilização de órgãos nas igrejas não é uma instituição particularmente antiga, principalmente por estas paragens. Desde que eles não estão de acordo com os ensinos apostólicos, os órgãos da grande catedral foram destruídos em 9 de dezembro deste ano de 1527. Assim, desta data em diante, não se desejam mais cânticos nem órgãos na igreja.” Em outro momento afirmou: “A igreja não deveria apegar-se a nenhum outro padrão além daqueles transmitidos e estabelecidos pelo Senhor e pelos apóstolos, e deveria permanecer sem mudanças (ALLEM, 1998, p. 46).

No tocante à proibição de música durante o culto promovida por Zwínglio, encontra-se semelhança no Movimento de Restauração do século XIX, pois, já no início do século XX, houve uma divisão no movimento motivado por opiniões divergentes com relação a instrumentos musicais. Uns entendiam que não havia menção no Novo Testamento de prática de instrumentos musicais no culto. A partir daí passou a existir o grupo conhecido como Igreja de Cristo não instrumental.

Outros aspectos que o Movimento de Restauração e a Reforma Protestante têm em comum são: Autoridade da Bíblia, o forte interesse de restaurar o cristianismo primitivo, o anti-tradicionalismo, e a defesa de que cada cristão deve ter acesso ao conteúdo bíblico.


Restauração na Inglaterra

A Reforma Inglesa foi intensamente influenciada pelo humanismo cristão. Os humanistas buscavam se desvencilhar das estruturas medievais; buscavam recuperar documentos dos primeiros séculos que revelassem o cotidiano dos primeiros cristãos, denunciavam a corrupção na igreja e defendiam que somente através da mensagem bíblica se poderia restaurar a moral e promover a renovação espiritual (ALLEM, 1998, p. 52).

Erasmo de Rotterdam (1466-1536) e John Colet (1467-1519) foram humanistas cristãos cuja mensagem apontava para a importância das fontes. Essa mensagem foi decisiva pra precipitar a reforma inglesa com o surgimento dos puritanos. Outro acontecimento decisivo foi a tradução do Novo Testamento para o inglês, feita por William Tyndale, que, além do texto do texto principal, continha notas e prefácios, como os de Lutero em sua tradução do Novo Testamento para o alemão (ALLEM, 1998, p. 53).

Os puritanos se constituem no grupo restauracionista com maior influência sobre o Movimento de Restauração do século XIX. Vários fatores contribuíram para isso: Os puritanos se constituíram no grupo que mais vivenciou o conceito do precedente bíblico de Zwínglio e Heinrich Bullinger. Poucos grupos foram tão radicais contra as tradições e cerimônias religiosas como os puritanos. Eles acreditavam que o bem estar do povo dependia da restauração da Igreja.

O segundo fator foi a oposição do Reino Elisabetano aos pregadores radicais, o que acelerou o êxodo dos perseguidos para a América. Esse fator intensificou o desejo de uma igreja separada do Estado, portanto de liberdade, marca importante na pregação de Barton W. Stone, um dos fundadores do Movimento de Restauração.

A mensagem principal dos puritanos era pelo retorno à igreja primitiva. Mesmo que a Igreja Inglesa também tivesse forte apelo pela igreja apostólica do primeiro século, os puritanos a criticavam por entender que ela ainda não se enquadrava como igreja restaurada (ALLEM, 1998, p. 57).

Mas se puritanos e anglicanos concordavam que a igreja deveria praticar o cristianismo primitivo, em que se diferenciavam? A resposta é que, para os puritanos, a Bíblia continha todas as orientações e normas para serem vividas e a igreja deveria observá-las em tudo, enquanto a igreja Anglicana entendia que só precisava praticar as ordenanças necessárias para salvação; as outras práticas deveriam ser adaptadas para atender necessidades de outros tempos. Para resolver essa controvérsia que também está presente no século XIX, Stone e Campbell adotam o princípio do essencial e do não essencial, com uma tendência mais próxima do princípio adotado pela Igreja Anglicana (WALKER, 1980, vol. 2, p. 138-139).

Outros movimentos ao longo da história tiveram muito em comum com o movimento Campbell/Stone, tais como os anabatistas, os metodistas, os movimentos de santidade e os pentecostais. Tiveram, cada um com sua ênfase, o ideal de restaurar o cristianismo primitivo e assim apressar o início do reino milenar de Cristo.

 


Chegada e estabelecimento no Brasil

A primeira tentativa de estabelecer o Movimento de Restauração no Brasil, entenda-se as Igrejas de Cristo, foi em 1927, com a chegada dos missionários Orlando Boyer (1893-1978), Ethel Boyer (1880-1968) e Vigil Smith(1902-2000). Foram enviados pelas Igrejas de Cristo norte americanas e se estabeleceram no nordeste brasileiro, inicialmente em Pernambuco. Em 1929 Bernardo Johnson, se juntou ao grupo. Até 1935, estabeleceram cerca de vinte congregações em Pernambuco, Ceará e Alagoas (AGOSTINHO JUNIOR, 2012, site).

Alguns fatores interromperam o crescimento desse projeto missionário, entre eles, a falta de recursos e apoio estrutural, mas o mais importante foi a adesão dos missionários ao movimento pentecostal local, liderado pela Assembleia de Deus, onde Orlando Boyer chegou a ocupar posição de destaque. Esse fato interrompeu estabelecimento do Movimento de Restauração no Brasil (SMITH, 2000, site).

A segunda tentativa se deu em 1948, com a chegada do missionário Lloyd David Sanders e sua esposa Ruth Sanders, em 25 de março de 1948. Por isso, David Sanders é considerado o pioneiro do Movimento de Restauração no Brasil (GONÇALVES, 2010, site).

Aos Sanders se juntaram, logo nos primeiros anos, J. Richard e Carolee Ewin, Ruth Spurgian e Ellem Case. Bill e Virginia Loft chegaram em 1952 e permaneceram em Belém por alguns anos, depois se dirigiram para Taguatinga no Distrito Federal, onde fundaram a Igreja de Cristo. Também no Pará iniciaram congregações, os missionários Clinton Benjamin e Phyllis Thomas, nas cidades de Belém e Macapá (AGOSTINHO JUNIOR, 2012, site).

Assim como esses, podemos citar vários outros missionários enviados para diversas regiões do Brasil, pelo Movimento de Restauração tais como: Richard Robison, David Baylees, James Moreland, Norma e Patty Maddux, Thomas e Libby Fife, Arthur Carter, Eugene Smith, Gerald Holmquist, Dale H. McAfee, Bill Metz e Eal e Ruth Haubner (GONÇALVES, 2010, site).

Ao chegar ao Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, o casal Sanders é recebido e orientado por Orlando Boyer, agora um missionário ligado às Assembleias de Deus e que os recebeu em sua casa. Em seguida, os conduziu para uma pousada na Tijuca.

David Sanders buscou informações sobre a Capital Federal localizada na região central do país. Pois, quando ainda estava no seminário no seu país, costumava orar diante de um mata do Brasil que tinha uma área marcada com a descrição “FUTURA CAPITAL”. Boyer lhe explicou que havia um projeto de construção e transferência da capital federal para a região centro-oeste. Então o casal, depois de passar alguns meses no Rio de Janeiro aprendendo o português, se dirigiu para Goiânia capital de Goiás, para se fixar o mais próximo da futura capital (GONÇALVES, 2010, site).

Em Goiânia iniciou uma pequena escola para crianças, no local que era realizada alfabetização e ensino bíblico. Esse foi o ponto inicial de contato do casal missionário como o povo brasileiro. Na medida em que o trabalho social se desenvolvia, o evangelho era pregado e as pessoas se convertiam. Entre 1953 e 1955, foi inaugurado o primeiro templo da Igreja de Cristo no bairro, de Vila Nova em Goiânia/GO (FIFE, 2010, site).

Enquanto aguardava o início da construção da capital federal, Sanders prosseguia pregando o evangelho em Goiânia nos bairros Vila Nova e Bota Fogo (hoje Setor Universitário), posteriormente se estendendo para cidades vizinhas, como Silvânia. Por essa ocasião, fundou um seminário teológico, hoje conhecido como Instituto Cristão de Goiânia. Enquanto a igreja crescia, aumentava o número de obreiros brasileiros que se somavam a outros missionários americanos que chegavam para colaborar e até mesmo desbravar outras regiões.

Em 1955, o então Presidente da República, Juscelino Kubichek inicia a construção de Brasília, David Sanders vai ao Rio de Janeiro requisitar uma área para construção de um templo, ao recebê-la, inicia a construção. De forma que Brasília é inaugurada em
1960, no mesmo dia David Sanders promove um culto de consagração do terreno com a presença dos missionários Dik e Cay Ewing, Merlin e Gertrudes Shields, Ed e Lula Knowles e Ruth Spurgeon, com esse ato, o Movimento de Restauração se estabelece na nova capital.

Na década de 1960 outras igrejas são iniciadas, o missionário americano Gerald Holmquist se dirige para Anápolis e Pires do Rio/GO, Artur Carter para Belo Horizonte/MG e Luziânia/GO, Bill Metz para Gama/DF, H. McAFee para Ceres/GO e Eugene Smith inicia a igreja em São Paulo (GONÇALVES, 2011, site).

Na década de 1970, há um número crescente de pastores brasileiros treinados no Instituto Cristão de Goiânia, assumindo a liderança das igrejas: Florisvaldo Moreira dos Santos, Herculano Ferreira Quirino, Anabor Inácio de Macedo, Iderval Gonçalves dos Santos, José Nascimento Valdor G. Abreu Pena, Ulisses Borges, Edson Pereira de Gouveia, Moisés Santana, Justino Moaci Rosa, Guilherme Santana, Waldiberto Moreira dos Santos e outros. Nessa década, foi criado o Concílio Ministerial das Igrejas de Cristo, órgão que se tornará um importante instrumento para a construção e manutenção da unidade das Igrejas de Cristo em torno da mensagem do Movimento de Restauração (GONÇALVES, 2011, site).

Em 1988, a Igreja de Cristo brasileira envia os primeiros missionários, Robert e Delane Fife para Portugal. Com esse ato se inaugura uma nova fase no movimento no Brasil. Em 1995, são enviados para Moçambique, Cleber e Juracema.

Por se tratar de um movimento que defende o sistema de governo de igreja congregacional independente, o desenvolvimento parte de várias igrejas simultaneamente, às vezes, sem contato entre si. Com o passar do tempo é que se encontram e começam a se relacionar. Cada congregação tem autonomia para consagrar seus próprios obreiros, abrir novas congregações e enviar missionários. A aproximação é desenvolvida através dos seminários teológicos e pela parceria no envio de missionários, de associações regionais de pastores, de congressos de jovens, congressos de mulheres, conferências missio nárias e convenções, essas realizadas anualmente pelo Concílio Ministerial das Igrejas de Cristo no Brasil, órgão eleito pelas Igrejas de Cristo (GONÇALVES, 2011, site).

Hoje existem aproximadamente 440 igrejas das quais 80 estão no Distrito Federal, 300 em Goiás e 60 em outros estados. Contando com 90.000 membros. As Igrejas de Cristo no Brasil mantêm diversas instituições, entre elas a Missão Cristã do Brasil que realiza assistência social, preparo teológico e missiológico. A MCB, em parceria com as Igrejas de Cristo, envia e mantêm missionários brasileiros em Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Portugal, Jordânia, Líbano, Paraguai e Estados Unidos (AGOSTINHO JUNIOR, 2012, site).

Embora as Igrejas de Cristo adotem o sistema congregacional independente como forma de governo, têm um concílio ao qual as igrejas não são obrigadas as se filiarem, porém voluntariamente, a maioria é filiada. Esse concílio participa na organização da 18ª Convenção Mundial do Movimento de Restauração, que se realizará em julho de 2012 em Goiânia, cidade onde esse movimento se iniciou no Brasil (FIFE, 2010, site).

 


Considerações finais

Concluímos que o fenômeno restauracionista sempre esteve presente no meio cristão. Ainda no primeiro século, duas mensagens estão presentes inclusive nos textos bíblicos, o anúncio do evangelho aos que o desconhecem e o chamado à prática cristã primitiva aos que já se encontram no caminho.

Curioso é que todos os seguimentos são unânimes quanto à necessidade de restauração, os conflitos se dão quanto à profundidade dessa restauração. Lutero desejou uma restauração, a seu ver, intensa. Porém, Zwínglio entendeu que deveria ir além. Os anglicanos buscaram uma restauração do cristianismo na Inglaterra, porém os puritanos foram além.

O que vimos é que a diferença entre o Movimento de Restauração de Campbell- Stone e os demais movimentos anteriores é que esse movimento tenta restaurar o cristianismo primitivo e, ao mesmo tempo, manter a unidade cristã. Talvez seja a primeira vez na história que um movimento traz para o debate o tema da unidade cristã na liberdade. Havia o discurso da unidade da igreja oficial, mas mantido à força.

Entendemos que o sistema congregacional independente proposto pelo Movimento de Restauração amenize os conflitos no mundo cristão, já que cada unidade congregacional tem autonomia para definir qual o grau de restauração que deseja implementar, sem que tenha que romper com as demais.

Com relação à unidade, o movimento não conseguiu seu ideal máximo que era a não divisão, porém se mostrou mais resistente às divisões que outros seguimentos, quando foi colocado à prova nos momentos críticos, como o surgimento do movimento pentecostal e intensa pressão dos movimentos de igrejas em células.

Todos os movimentos como os da Reforma Protestante, Tradição Reformada Puritanos, deram sua contribuição para restaurar aspectos do cristianismo que haviam se corrompido. A história continua, outros movimentos surgirão e o cristianismo estará novamente no meio de controvérsias e ao final se sai sempre fortalecido e o resultado do debate acaba beneficiando o ser humano como um todo.

A Igreja de Cristo no Brasil busca resgatar a mensagem de Stone e Campbell co m relação à autoridade bíblica, a liberdade e unidade cristã. Ao contrário de outros movimentos que chegam organizados e com uma orientação e administração centralizada, o Movimento de Restauração chega de diversas congregações, se estabelece e, posteriormente constrói a unidade.

 


Referências bibliográficas

ALLEM, C. Leonardo, HUGHES, Richard T. Raízes da restauração: a gênese histórica do conceito de volta à Bíblia. São Paulo: Vida Cristã, 1998.

NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do cristianismo. São Paulo: Cultura
Cristã, 2000.

WALKER, Williston. História da Igreja Cristã. Volume II, Rio de Janeiro e S.Paulo: Juerp/Aste, 1981.

Sites consultados

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FIFE, Jefferson Davis. As Igrejas de Cristo/Cristãs e o Movimento de Restauração. http://www.movimentoderestauracao.com/. Acesso em 02 jun. 2012.

GONÇALVES, Ozório R. História das Igrejas de Cristo no Brasil. 2011. http://www.movimentoderestauracao.com/ . Acesso em 21 mai. 2012.

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GONÇALVES, Ozório. As Igrejas de Cristo em Brasília. 2011. http://www.movimentoderestauracao.com/. Acesso em 20 mai. 2012.

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Restoration Movement Pages. http://www.mun.ca/rels/restmov/restmov.html. Acesso em 29 mai. 2012.

SMITH, Virgil Frank Histórico de vida e trabalho de Virgil Smith 2000. http://www.movimentoderestauracao.com/. Acesso em 26.06.2012

Bibliografia sugerida

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