Os Campbells dão início aos discípulos de Cristo

Thomas Campbell dava boas-vindas a todas as pessoas que viessem cultuar em sua igreja. Ele pastoreava uma congregação na parte ocidental da Pensilvânia que pertencia à Igreja Presbiteriana Separatista, uma denominação dissidente, cujas raízes eram escocesas. Triste em razão das divisões mesquinhas que as doutrinas de homens acarretavam, Campbell estava disposto a receber qualquer presbiteriano que viesse até sua igreja, assim como permitia que membros de outras igrejas participassem da comunhão, quer fossem separatistas, quer não.

Porém, o presbitério não gostou disso, pois o regimento proibia essa prática, Eles promoveram uma investigação oficial sobre o assunto e con-denaram Campbell. 

Em resposta, Campbell escreveu ao Sínodo. Ele explicou seus princípios que, na verdade eram idéias que, em breve, o levariam a formar uma nova denominação. A igreja precisava de unidade e deveria romper com formulações teológicas humanas, para seguir os claros ensinamentos das escrituras. Ele venceu esse caso. O Sínodo reverteu a condenação do presbitério, mas um sentimento de amargura permaneceu entre os pastores amigos de Campbell. Assim, ele deci-diu sair e começar sua própria igreja. 

Thomas Campbell fora pastor por muitos anos no norte da Irlanda, mas mudara-se para os EUA por razoes de saúde, Deixou a igreja e a escola que conduzia na Irlanda nas mãos de seu filho, Alexander, um jovem muito capacitado para o cargo. 

Os EUA ainda eram o Novo Mundo. Suas fronteiras começavam nos Apalaches e estendiam-se a oeste. Em termos religiosos, a onda do avivamento estava terminando. O avivamento começou com Whitefield e Edwards na costa leste e rumou para o oeste. Os avivamentos das reuniões ao ar livre (camp meetings) começaram no Estado de Kentucky por volta do ano 1800 e ainda havia lampejos dele ao longo da fronteira. 

Ironicamente, porém, os avivamentos podem causar divisão. O despertamento no oeste foi bastante diferente daquele que ocorreu na costa leste. O leste, por exemplo, ouvia o erudito Jonathan Edwards arrazoando cuidadosamente sobre a ira de Deus e a necessidade de reconciliação, O oeste linha um bando de pregadores das partes mais remotas, com pouco treinamento teológico, que se colocavam em pé atrás de uma carroça para persuadir os pecadores a ficar de bem com Deus. Era uma diferença não apenas de estilo, mas também de teologia. O avivamento da costa leste era mais presbiteriano, e do oeste, mais metodista; o leste era mais calvinista, e o oeste, mais arminiano: o leste era mais eclesiástico, e o oeste, mais in-dividualista. 

Desse modo, existiram varias dissidências no início do século XIX: o Presbitério de Cumberland, os shakers, o movimento da Nova Luz de Barton Stone e, agora, o grupo de Thomas Campbell. 

Campbell fazia reuniões em qual-quer lugar em que possível: em celeiros, em casas e nos campos, atraindo um grande número de seguidores. Chamava o grupo Associação Cristã de Washington (na comarca de Washington Pensilvânia) e escreveu a Declaração e Alocução, que serviu como documento de fundação do movimento. Como outros fundadores da igreja, ele não tinha desejo genuíno de romper com a igreja oficial, mas foi compelido pela necessidade de caminhar em certa direção, já que nenhuma igreja parecia propensa a trilhar esse caminho. Para Campbell a direção era bíblica e simples. Seu tema foi: “Onde as Escrituras falam, nós falamos; onde as Escrituras se calam nós calamos”. 

O filho de Thomas, Alexandre Campbell chegou da Irlanda em 1809 e imediatamente embarcou com seu pai nesse empreendimento. Ele tinha apenas 23 anos, mas era extremamente talentoso. Pois era um bom orador e um debatedor arguto. Juntos fundaram a Igreja de Brush Run em 1811 (depois da entrada na Igreja Presbiteriana lhes ter sido negada), Estudando as Escrituras, os Campbells chegaram à conclusão que o batismo de crentes por imersão era o correto, ao contrário do batismo infantil que praticavam de modo que começaram a rebatizar os membros da igreja.

Nesse aspecto, eram essencialmente batistas, de modo que se filiaram à Associação Batista de Redstone em 1812. Alexander Campbell tornou-se figura importante na Igreja Batista, fazendo varias palestras e publicando um periódico chamado The Christian Baptist (O Cristão Batista). Também fundou um seminário em Bethany, no oeste da Virgínia. Campbell estava sempre tentando levar a igreja de volta ao Novo Testamento, outra vez ao que ele julgava ser o Caminho bíblico, Escreveu uma serie de artigo em seu jornal sob o título “A restauração da antiga ordem das coisas” 

Nem todos os batistas gostaram disso. Campbell achava que muitos ensinamentos batistas eram muito calvinistas e os atacava com freqüência. Discordavam também da compreensão que os batistas tinham do batismo. Os batistas consideravam esse ato uma ordenança que apenas representava a salvação que já ocorrera anteriormente. Campbell, porém baseou-se em diversas passagens do Novo Testamento, que traziam a expressão "arrepender e ser batizado",  para argumentar que o batismo era uma condição necessária para o perdão. Campbell também rejeitava as tentativas de ir além das Escrituras na explicação da Trindade. 

No final de 1820, as tensões chegavam a um ponto insuportável. Os seguidores de Campbell deixaram a Associação Batista e, em 1832, uniram-se à Igreja Cristã de Barton Stone. (Tanto Campbell quanto Stone queriam nomes simples e bíblicos para seus grupos, abstendo-se do denominacionalismo. A partir disso, “Cristãos” e “Discípulos de Cristo” foram nomes usados indistintamente pelos dois movimentos que se uniram.) Nesse momento o grupo era formado por cerca de 25 mil membros. 

O movimento continuou a crescer, parcialmente devido à proemi-nência pessoal de Alexander Campbell, que atuou como delegado na convenção constitucional da Virgínia em 1829. Tiago Madison, seu colega na delegação, disse o seguinte sobre ele: “Eu o considero como o mais hábil e mais original expositor das Escrituras que já ouvi”. 

A ampliação do movimento tam-bém se deveu em parte à expansão da fronteira ocidental. Os discípulos tinham um evangelho simples para um momento simples. Alexander Campbell era anti-escravagista desde o início, mas não foi um abolicionista veemente. Portanto, a igreja não se dividiu durante a Guerra Civil. Na virada para o século XX, havia cerca de um milhão de discípulos de Cristo. 

A importância dos Campbells reside não apenas na fundação de uma denominação importante, mas na adoção de uma fé bíblica bastante simples. 

A história da igreja está repleta de histórias de tensão entre a religião formal e a fé simples. Os Campbells protegeram muitas pessoas da opressão da formalidade, levando-as a uma fé mais pessoal. Gerados e nutridos nas partes mais distantes de uma nação emergente, os discípulos se tornaram um grande exemplo do cristianismo americano daquela época. Eles ajudaram a preparar o terre-no para os movimentos reavivalistas e para os fundamentalistas. 

Fonte: Os 100 acontecimentos mais importantes na historia do cristianismo.