Fatores que Influenciaram o Movimento de Restauração

O PASSADO AMERICANO

 O Movimento de reforma na religião, como movimento para reforma na vida social, econômica, são sensíveis ao ambiente do qual são parte e do qual surge é frequentemente apontado que o próprio cristianismo começou em uma época quando vários fatores eram favoráveis à rápida disseminação do Evangelho. Filósofos haviam falhado em responder satisfatoriamente às questões cruciais sobre a vida e seu significado, ou em providenciar homens com exemplos adequados para uma vida moral significante. Cristo respondeu às questões e providenciou os modelos. O grego, uma linguagem apropriada à expressão clara e forte do pensamento, estava em grande uso pelos povos do mundo do Mediterrâneo. Apesar de outras línguas serem também conhecidas e usadas, o grego providenciou o meio comum pelo qual o evangelho pôde ser feito conhecido a todos. Uma rede esplêndida de estradas facilitariam a comunicação e viagem. Acesso gratuito foi providenciado a todas as nações, e o evangelho foi logo carregado por todo o império romano. E essa foi uma época de paz; não houve nenhuma guerra importante para impedir o progresso dos mensageiros do Príncipe da Paz.

Algumas considerações sobre aqueles fatores prevalentes na América ao final do século XVIII, políticos, econômicos, morais e religiosos deveriam contribuir para um melhor entendimento acerca do surgimento e desenvolvimento do Movimento de Restauração.

CONDIÇÕES POLÍTICAS E ECONÔMICAS

Os americanos estiveram envolvidos em três guerras durante a última parte do século XVIII e nos primeiros anos do século XIX. A fase Americana da luta por poder entre a Inglaterra e a França na última metade do século XVIII é conhecida como a Guerra do Francês e do Índio (1754-1763). Alguns poucos anos de paz instável e tensão acumulada foram seguidos pela Guerra Revolucionária (1775-1783). A interferência Britânica no comércio americano, incluindo o recrutamento forçado de marinheiros de navios americanos para servirem em embarcações inglesas e intrigas em assuntos políticos americanos, resultaram na guerra de 1812 (1812-1814).

A guerra revolucionária foi uma luta das colônias pela independência e autodeterminação. A derrota dos ingleses trouxe liberdade política para as colônias. Esta liberdade recém-alcançada marcou cada fase do desenvolvimento da vida americana, incluindo a vida religiosa. Aqueles que prejudicaram suas vidas pelo bem da consciência e liberdade estariam pouco inclinados a se entregar  mesmo em assuntos religiosos. Um individualismo rigoroso baseado no direito de adorar sem interferência de outros iria marcar o cristianismo americano. Liberdade sob autoridade justa, um apelo à verdade máxima como encontrada em Jesus e o Novo Testamento, com liberdade individual em assunto não revelados, viria a ser um princípio básico do Movimento de Restauração.

A Compra de Lousiania em 1893 aumentou grandemente as fronteiras dos Estados Unidos. A corrente de imigrantes vindos do Leste jorrou dentro das velhas seções do Oeste e para dentro deste novo território. O Movimento de Restauração acompanhou esta expansão em direção ao Oeste e ficou tão identificado com ela que o movimento é frequentemente caracterizado como o movimento de fronteira.

CONDIÇÕES MORAIS

A era que se seguiu à Guerra Revolucionária viu a perda da sensibilidade moral, resultando no repudio prático de obrigação e responsabilidades morais. A liberdade também era frequentemente construída como licença, deboche eram comum. Os alunos universitários geralmente compartilhavam o temperamento da época. Muitos deles, enquanto se preparavam para posições de lideranças na nação falhavam em exibir ou desenvolver a integridade moral tão vital para uma liderança de sucesso. Bebedeira era comum mesmo entre os clérigos.

Talvez um pouco da culpa deva ser justamente colocada sobre a influência dos soldados britânicos e franceses na América. Mas a decadência moral é sempre uma parte da desmoralização geral que acompanha uma guerra. Homens incitados ao ódio contra o inimigo não perderam sua habilidade de odiar quanto o último tiro é disparado. A destruição e  o massacre de guerra tenderam a fazer a vida barata e incerta;e quando a vida é assim considerada, os homens vivem primariamente para o presente, dando prioridade aos apetites e paixões acima de qualquer outra coisa.

Outro fator que contribui para a baixa do tom moral na nação foi o colapso na religião. Falta de espiritualidade, com muita freqüência tanto no púlpito quanto nos bancos, fez da igreja ineficaz. O cetismo que era prevalente na América, resultante do beber das fontes do deísmo inglês e do ateísmo francês, removeu as restrições religiosas e diminuiu a estabilidade moral.

CONDIÇÕES RELIGIOSAS

VIDA ESPIRITUAL EM BAIXA

É geralmente admitido por historiadores que o período em consideração foi uma das eras  de menor espiritualidade na história da América. Já temos apontado o impacto do deísmo filosófico inglês e do ateísmo francês que tiraram seus lucros dos membros das igrejas. As universidades, como as de Harvard e Yale, eram lucros dos membros das igrejas. As universidades, como as de Harvard e Yale, eram abertamente ateístas. Os trabalhos de Thomas Paine e Voltaire foram lidos e suas visões adotadas. Era difícil achar um cristão nessas universidades, e aqueles que estavam dispostos a se posicionar por Cristo eram ridicularizados e perseguidos.

O interesse pela religião era pouco afiliação às igrejas declinava. Havia algumas, é claro, que verbalmente e por comportamento, manifestavam uma fé permanente no Deus vivo; mas, geralmente de modo, o cristianismo vital estava num ponto muito baixo. De fato, as condições religiosas eram tão más que alguns eram convencidos que “a luz do mundo” seria logo apagada e a igreja se tornaria uma religião do passado. Ou, caso isso ocorresse, o cristianismo pelo menos assumiria uma posição sem importância e minoritária na vida dos americanos. A perspectiva era realmente negativa.

DESEJO POR LIBERDADE RELIGIOSA

Liberdade religiosa sempre esteve relacionada com liberdade política. Seu estabelecimento estava a caminho nas colônias. Nove estados haviam estabelecido igrejas sustentadas pelo estado no início da Guerra Revolucionária: Massachusetts, New Hampshire e Connecticut eram congregacionais; Maryland, Novo York, Virgínia, Carolina do Norte, Carolina do Sul e Geórgia eram anglicanas ou episcopais. O estabelecimento anglicano foi rejeitado por todos estes estados, exceto Virgínia , no período inicial abolido nos estados da Nova Inglaterra um pouco mais tarde: New Hampshire, em 1817; Connecticut em 1818,e Massachusetts, em 1833.

A nova liberdade política não conduzia à sujeição religiosa. Até mesmo João Wesley, cuja simpatia e orações eram voltadas para a Inglaterra, durante a Guerra Revolucionária, e viveu e morreu como membro da Igreja Anglicana, enviou a seguinte palavra à Sociedade Americana, na época de sua organização como Igreja Metodista Episcopal em Baltimore, Estados Unidos, em 1784.

Já que nossos irmãos americanos estão agora totalmente desembaraçados, tanto do Estado como da hierarquia inglesa, não ousamos embaraça-los outra vez nem com um nem com outro. Eles estão agora em liberdade completa para simplesmente seguir as escrituras e a igreja primitiva. E julgamos que o melhor que eles têm a fazer é se manterem firmes na liberdade pela qual Deus tem tão estranhamente os libertado.

Nem tudo permaneceria no escuro, no entanto; havia algumas evidências de um avivamento de interesse religioso. A história estava para se repetir.

DESPERTAMENTO ESPIRITUAL

Uma seca espiritual, próximo ao início do século XVIII havia sido aliviada por um período de reavivamento conhecido como “O Grande Despertamento”. Ele começou por volta de 1733, sob a pregação de homens como Gilbert Tennant, Jonathan Edwards, e George Whiterfield. Isto revitalizou o ministério e a Igreja, dando grande ímpeto a educação e missões. No entanto, o Grande Despertamento foi seguido por outro período de apatia espiritual, como mencionado acima. Ma o chamado para um retorno à fé em Deus e a uma prática religiosa vital em harmonia com sua fé mais uma vez repercutiu por toda a nação.

O segundo despertamento religioso na América durante o século XVIII veio na última parte desse século. Ele tem mais pronuncia no sul e no Oeste,mas não ficou confinado a essas áreas. As faculdades tiveram um renascimento de interesse religioso e comprometimento debaixo da pregação e ensino de homens como Timóteo; Dwight, presidente da Universidade Yale. Dwite era um pregador excelente e um apologético capacitado para o cristianismo. Ele refuta os argumentos dos deístas e ateístas e convida a um retorno a Cristo e Sua Palavra.

Notaremos adiante o desenvolvimento das grandes reuniões de acampamentos, promovidas pelas pregações dramáticas de homens como James McGready (presbiteriano) e os irmãos McGee, John e William, um presbiteriano e o outro metodista, as quais penetraram na alma. O Avivamento de Cane Ridge, no qual Barton Stone e outros membros de presbiterianos associados com o Sínodo Presbiteriano de Kentuck estavam envolvidos, foi uma parte deste movimento reavivalista. A participação de Stone e outros nestas reuniões era para ser um fator no julgamento deles e expulsão pelo presbitério e sínodo, apesar de as acusações contra eles serem primariamente a respeito de violação das doutrinas estabelecidas na Confissão de Westminster.

CREDOS COMO MODELOS RELIGIOSOS

A reforma protestante do século XVI havia promulgado os seguintes princípios: a auto-suficiência da Bíblia, o sacerdócio de todos os crentes, e o direito e dever de julgamento privado. É com o segundo e terceiro princípio que nos preocupamos. Já que todo cristão é um sacerdote, (Ap. 1:6), a Bíblia não podia mais ser considerada propriedade única dos sacerdotes eclesiasticamente constituídos, como os da igreja romana, e ser interpretada por eles para o povo. Como sacerdotes, de acordo com o Novo Testamento, cada cristão devia ler a Bíblia e aplica-la para si mesmo.

Na prática, no entanto, estes princípios foram anulados pela adoção de credos humanos como modelos ortodoxos e a base para comunhão cristã. Cada cristão devia ler e aplicar as verdades bíblicas como ele as via, mas deveria ter comunhão com outros apenas por aceitar a afirmação do entendimento bíblico deles incorporado em um credo. Em um fôlego só foi dito aos cristãos, “Você tem o direito e o dever de usar seu próprio julgamento para interpretar a Bíblia”, e depois: “Se você espera ter comunhão conosco, sua interpretação deve concordar com a nossa”. Alexandre Campbell caricaturou esse uso de credos na sua “Parábola da armação de ferro”. O Movimento de Restauração passou a buscar o abandono de credos como testes de comunhão.

UMA IGREJA DIVIDIDA

Os credos eram a semente do sectarismo. Eles serviam como a base para inclusão e exclusão, para união e excomunhão. Eles dividiam as igrejas em campos denominacionais.

Não só as forças cristãs eram divididas, elas eram também engajadas em guerra civil. Inveja, espírito de divisão, luta por supremacia: estas coisas arruinariam a paz de Sião. As implicações mais abrangentes das afirmações de Jesus encontradas em Mateus 12:25 haviam passado despercebidas ou foram ignoradas: “Todo reino dividido contra si mesmo é trazido à desolação;e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá”. O movimento de Restauração tinha a intenção de apontar os males da divisão, chamar à cessação da guerra civil, e implorar pela unidade das forças cristãs através do retorno à Palavra de Deus como o único padrão.

A TEOLOGIA CALVINISTA

O calvinismo era o sistema teológico dominante na América e na Europa. Os metodistas eram arminianos, mas os batistas e presbiterianos, de cujos grupos vieram muitos  dos líderes da época do movimento da Restauração eram calvinistas em teologia.

Calvinismo é essencialmente a teologia de Augustinho cuidadosamente sistematizada e logicamente aplicada. O fundamento básico de Calvino, ou o ponto inicial para seu sistema de doutrina era a soberania absoluta de Deus. Seu sistema tem sido resumido em cinco pontos: compensação limitada; total depravação, ou inabilidade humana; eleição e predestinação; irresistibilidade da graça; e perseverança dos santos. Vamos olhar rapidamente essas doutrinas como ensinadas na época.

Depravação total. Como a conseqüência da transgressão no Jardim do Éden, todos os descendentes de Adão se tornaram depravados, incapazes de responder a Deus. Tão desordenada é a natureza do homem que “ele não poderia fazer o bem se quisesse, e não faria se pudesse”. Ele deve, por isso, depender somente da graça de Deus para a Salvação.

Eleição e Predestinação. Deus, por decreto divino, escolheu (elegeu) certos indivíduos para a salvação. Aqueles a quem elegeu, Ele também predestinou para vida eterna; todos os outros estão predestinados para condenação ou punição eterna. Alguns acreditam que esta eleição tomou lugar antes da queda; outros, que isto se seguiu ao pecado de Adão.
 Compensação limitada. Cristo morreu apenas pelos eleitos. O sangue que Ele derramou tem significado apenas para os escolhidos. Sua morte de modo algum, afeta a vida ou destino do não-eleito; para eles não existe esperança, nenhuma salvação.

Irresistibilidade da Graça. A eleição é a manifestação da graça (favor desmerecido) de Deus. Já que Ele é soberano absoluto, ninguém pode resistir ou rejeitar a expressão de sua misericórdia e bondade.

Perseverança dos santos. O decreto de Deus de eleição deve permanecer. Um dos seus eleitos não pode se perder; ou, em termos familiares a nós hoje, “uma vez na graça sempre na graça”.

CONVERSÃO

A doutrina da conversão foi determinada por esta teologia calvinista. Salvação é pela fé – “apenas creia”. Mas toda a natureza humana é depravada e incapaz de qualquer bondade ou resposta a Deus, e homem algum pode fazer qualquer coisa para merecer ou alcançar salvação, por isso o pecador não pode crer. Portanto, a fé salvadora é imposta aos eleitos pela operação direta e miraculosa do Espírito Santo, e o sangue de Cristo limpa de todo pecado. A graça de Deus continua a prover para cada necessidade e assegura a fé do cristão até a morte, quando ele receberá “ a coroa da vida” a qual tem sido assegurada pela eleição de Deus.

Tanto calvinistas como arminianos convidam pecadores sob “acusação” ao “banco de lamentações” para orar e para que orem por ele. Pela oração no “banco de lamentações” ou em outro lugar, aos pecadores era assegurado que Deus os havia perdoado e aceitado. Esta segurança trouxe para de mente e alma e grande alegria. Isto era frequentemente associado com uma visão ou algum outro “sinal” de Deus.

Para muitos, os quais estavam acostumados ao calvinismo e conversões do “banco de lamentações”, a pregação e prática daqueles associados ao movimento de restauração deviam parecer frias e mecânicas. Eles apresentavam um programa de conversão racional e bíblica, pregando que a fé era a crença de testemunho, que todos os homens podiam crer, que Cristo morreu para todos; portanto, todos podem vir a Cristo e todos podem voltar para Ele e ser salvo através do Seu sangue. Pecadores que questionavam. “O que podemos fazer para ser salvos? “Frequentemente recebiam como resposta as palavras de Pedro no dia de Pentecostes (Atos 2:38). Pecadores eram convidados não para um “banco de lamentações” para orar, mas para uma confissão pública de sua fé, seguida pelo batismo em Cristo para remissão dos pecados.

NEGLIGÊNCIA E MAU USO DA BÍBLIA

Nominalmente, a Bíblia era o padrão para todo cristão. Mas já temos visto que, na prática, a autoridade da Bíblia era limitada pelo uso de credos. Thomas Campbell foi julgado digno de censura e excomunhão pelos separatistas por manter doutrinas em não harmonia com a Confissão de Westminster. Poucos anos mais tarde, seu filho enfrentou acusação de heresia por ensinar doutrinas contrárias ao padrão batista, a Confissão de Filadélfia.

Ao usar a Bíblia, nenhuma distinção era feita entre o Velho e o Novo Testamento, ou entre as alianças que eram representadas. As duas eram consideradas obrigatórias para os cristãos; as palavras de Moisés sendo igualmente autoritárias como as palavras de Cristo e seus apóstolos. Thomas Campbel, na Declaração e Discurso, enfatizou a unidade da Bíblia, mas insistiu que o Novo Testamento é “a constituição perfeita para adoração, disciplina e governo da Igreja Neotestamentária”. Alexandre Campbell, em seu Sermão sobre a Lei, pregada antes da Associação Batista Redstone, em 1816, fez distinção entre a lei e o evangelho como apresentado no Velho e no Novo Testamento. Isto, diz ele, precipitou uma “guerra de sete anos” como os batistas, particularmente com certos clérigos.

OS CLÉRIGOS

Apesar de haver muitos ministros consagrados conscientemente servindo a Deus durante o período aqui considerado, geralmente os clérigos eram julgados um bocado ambiciosos e arrogantes. Alexandre Campbell acreditava que os clérigos eram responsáveis por muito, se não tudo, o que era mal indesejado, anti-bíblico, e desnecessário na igreja.Ele os considerava “mercenários” ou “padres de mercenários” mais preocupados com dinheiro que homens, certo de que eles eram os maiores inimigos da reforma. Ele conduziu uma guerra quase que incessante contra eles. As primeiras edições da Batista Cristão são literalmente cheios de punições para os clérigos. O “Sermão sobre bodes” e “ A Terceira Epístola de Pedro” do editor são sátiras alfinetantes sobre as ambições, afirmações e trabalhos dos clérigos.

Tais eram, então, as condições na América, no início do século XIX. É contra o cenário de fundo que devemos ver e interpretar as atividades dos primeiros líderes do movimento de Restauração.