Nossa Herança Histórica

cane_ridge.jpgQuando olhamos para o passado observamos e desenvolvemos a consciência que nossas heranças não são apenas bíblicas, mas também são históricas. Dessa forma, compreender o passado e como as nossas tradições nos moldaram irá nos ajudar a sobreviver no mundo religioso “globalizado” sem perdermos a nossa identidade.

É verdade que as nossas heranças são apostólicas ou neotestamentárias, mas elas também são históricas, antecedem a Reforma Protestante e remontam ao período da Pré-Reforma no século XIV. Vejamos algumas dessas nossas heranças.

I. A Pré-Reforma (Séc. XIV)

Reconhecemos as nossas raízes históricas na Pré-Reforma do século XIV, especialmente nas idéias do inglês John Wycliff (1320-1384), a “Estrela Matutina da Reforma”. Elas foram colocadas em prática na Boêmia, atual República Tcheca, por Jan Huss (1369-1415), o “avô da Reforma Protestante”. Ambos rejeitavam as seguintes doutrinas e práticas romanas:

a) A infalibilidade do Papa;
b) A autoridade papal sobre a Igreja;
c) A venda de indulgências;
d) Os abusos dos clérigos;
e) A confissão auricular;
f) A absolvição clerical;
g) A confirmação;
h) A veneração de imagens;
i) A invocação dos santos;
j) O purgatório e outras mais.

II. A Reforma Protestante (Séc. XVI) 

Na noite do dia 31 de outubro de 1517, em Wittenberg, Alemanha, Martinho Lutero (1483-1546) afixou as suas “Noventa e Cinco Teses” em oposição às indulgências. Tinha início um dos maiores movimentos de volta à Bíblia da história da Igreja, denominado “Reforma Protestante” e que compreende o período entre os anos de 1517 a 1648.i As nossas heranças na Reforma Protestante do século XVI estão no direito de cada crente ler e interpretar a Bíblia e na busca pelas formas e padrões bíblicos, principalmente na tradição reformada suíça liderada por Ulrich Zwínglio (1484-1531) em Zurique e João Calvino (1509-1564) em Genebra. 

III. Os Puritanos (Séc. XVI e XVII)

O puritanismo surgiu na Inglaterra no século XVI e tinha como propósito “purificar” a Igreja Anglicana das formas e padrões romanistas, como afirmou um dos seus líderes mais proeminentes, John Robinson. Ele disse certa vez que:

"A Igreja da qual fazemos parte é tirada do molde primitivo e apostólico, e não é um dia, nem uma hora sequer, em sua forma e natureza, mais nova do que a primeira igreja do Novo Testamento”.

Essa ênfase puritana na restauração das formas e padrões do Novo Testamento também influenciou os Batistas Separatistas de 1750 e outros movimentos surgidos por volta do século XIX nos EUA: os Batistas Circunscritos (James R. Graves), a Igreja Cristã no sul e oeste (James O’Kelly), a Igreja Cristã da Nova Inglaterra (Elias Smith e Abner Jones), as Igrejas Cristãs no Kentucky (Barton Stone) e os Discípulos de Cristo em Washington (Thomas Campbell e Alexander Campbell).

IV. Os Reavivamentos Evangélicos (Séc. XVII e XVIII)

Os grandes reavivamentos evangélicos dos séculos XVII e XVIII foram o Pietismo na Alemanha, o Metodismo na Inglaterra e os Dois Grandes Reavivamentos nos Estados Unidos. Há uma linha que liga cada um deles com o outro. As Igrejas Cristãs de Barton Stone surgiram durante o Segundo Grande Reavivamento nos EUA e por ele foram profundamente marcadas, por essa razão incluímos esse ponto entre as nossas heranças.

O pietismo surgiu no final do século XVII como uma reação ao estado em que se encontravam o luteranismo (que havia se tornado doutrinariamente rígido e morto no sacramentalismo) e o calvinismo (agora legalista e dogmático).O pietismo enfatizava a necessidade de um relacionamento pessoal com Deus, a conversão, a santificação, um desprezo relativo aos credos e a comunhão universal dos crentes. O principal nome do pietismo foi Phillip Jakob Spener (1635-1705), pastor da Igreja Luterana em Frankfurt, na Alemanha. O mais notável discípulo de Spener foi August Hermann Francke (1663-1727). Francke organizou escolas para os pobres, um orfanato, uma gráfica e várias outras obras sociais.

A última fase do pietismo foi dominada pelo Conde Nikolaus Ludwig von Zinzendorf (1700-1760),iv luterano que mais tarde foi ordenado ao ministério pela reorganizada igreja Irmãos Unidos (Unitas Fraternum), como ficaram conhecidos os remanescentes hussitas da Boêmia e Morávia. Sob a liderança de Zinzendorf, e graças aos seus esforços missionários, os “morávios” se tornaram a primeira força protestante em larga escala.v Confira abaixo o que o autor do livro “História do Cristianismo” escreveu sobre esse avivamento evangélico:

“O pietismo prestou uma enorme contribuição não somente ao povo alemão mas para o mundo cristão... Transformou a pregação e a visita pastoral em objetivos centrais do ministério protestante... E compreendeu a importância da espiritualidade dos leigos para a igreja reavivada... A intensidade com que os pietistas descreviam a regeneração freqüentemente fazia do cristianismo um drama da alma humana. O coração do homem era cenário de uma batalha desesperada entre os poderes do bem e do mal... Nesse sentido, o pietismo foi a fonte de todos os reavivamentos modernos”.

"O pietismo permanece vivo, não só nas denominações moravianas como na cristandade evangélica como um todo – os descendentes espirituais de John Wesley e George Whitefield”.

Quanto ao avivamento metodista, Shelley escreveu que “a Inglaterra era o local menos provável para um avivamento, pois entre os ricos e cultos ingleses o iluminismo tirou a fé do centro das suas vidas para a periferia”. Um renomado escritor evangélico brasileiro disse que “a reforma protestante abraçada pela Inglaterra não era reforma nem protestante. Era mais um ato político de Henrique VIII”. Não havia fervor na igreja oficial estabelecida (episcopal anglicana), nem entre as chamadas igrejas livres não-conformistas (presbiterianos, batistas e congregacionais). Foi nesse contexto que por volta de 1727, na Universidade de Oxford, teve início entre os estudantes, organizados em pequenos grupos (“reuniões de classe”) e sob a liderança dos irmãos Charles Wesley (1707-1788) – o maior compositor de hinos cristãos em língua inglesa de todos os séculos – e John Wesley (1703-1791), o movimento chamado “metodista”. Mais tarde George Whitefield se uniu a eles, veio a ser um grande evangelista e um dos responsáveis pelo Primeiro Grande Avivamento nos Estados Unidos. Os metodistas enfatizavam o fervor evangélico, a conversão e a conduta cristã. Também não eram achegados aos credos, ritos e cerimônias como meios da salvação.xi O avivamento metodistaxii revitalizou o cristianismo na Inglaterra.

Simultaneamente ao avivamento metodista na Inglaterra, tinha início nos Estados Unidos o Primeiro Grande Avivamento da igreja americana. Ele se deu entre 1735 e 1743 e foi liderado por Jonathan Edwards (1703-1758), George Whitefield (1714-1770)xiii e outros pregadores. Como resultado houve um aumento do interesse geral nas coisas espirituais, envolvimento dos leigos,  crescimento na membresia das igrejas e comunhão interdenominacional. Esse avivamento foi marcado por pregações emocionais, populares e conversões com manifestações físicas. Os maiores beneficiários do Primeiro Grande Avivamento foram os separatistas, os metodistas e os batistas.

Entre o final do século XVIII e início do século XIX teve início o Segundo Grande Avivamento. Os nomes de mais destaque desse período são Timothy Dwight (1752-817),xv Charles Finney (1792-1875),i o inflamável James McGready (1758-1817), pastor presbiteriano de três igrejas no Estado do Kentucky (Red River, Gasper River e Muddy River) e Barton Stone (1772-1844).

Semelhante ao anterior, esse avivamento também trouxe uma maior preocupação com as coisas espirituais e proporcionou uma renovação da vitalidade nas igrejas, maior compromisso missionário, a busca por reformas sociaisxix e o surgimento de movimentos que buscavam restaurar o cristianismo do primeiro século. Os acampamentos de avivamento organizados se tornaram o meio mais comum de evangelizar e as conversões, semelhantes ao avivamento anterior, eram dramáticas e marcadas por manifestações físicas.

O Primeiro Grande Avivamento, no século XVIII, teve uma base calvinista. Já o Segundo Grande Avivamento teve uma orientação claramente arminiana.xx Isso explica porque crentes de origem presbiteriana abandonaram a teologia calvinista e adotaram idéias arminianas, como os pioneiros do nosso movimento nos EUA.

A tradição teológica protestante iniciada com Jacó Armínioxxi (1560-1609), pastor da Igreja Reformada de Amsterdã, Holanda, e por isso conhecida como “arminiana”, surgiu nos séculos XVI e XVII do questionamento das doutrinas calvinistas da eleição incondicional e da graça irresistível. No dia 19 de outubro de 1609, foi publicado um panfleto chamado “Remonstrance”,xxii que sintetizava o arminianismoxxiii em cinco pontos:

1. Deus elege ou reprova com base na fé ou na incredulidade previstas;
2. Cristo morreu por todos e por cada homem, embora  somente os crentes serão salvos;
3. O homem é tão depravado que a graça divina é  necessária tanto para a fé como para as boas obras;
4. Pode-se resistir à graça divina;
5. Se todos os verdadeiramente regenerados perseveram com certeza na fé, é uma questão que exige maior investigação.

Essa tradição teológica teve continuidade com H. Uytenbogaert (1557-1644), Episcópio (1583-1643), Curcelaus (1586-1659), Hugo Grótio (1583-1645), Limborch (1633-1712), John Wesley (1703-1791), Charles W. Carter, John Miley, William B. Pope, H. Orton Wiley, o nosso irmão Jack Cottrellxxiv (professor do Cincinnati Bible Seminary) e muitos outros teólogos e líderes evangélicos.

V. Outros Movimentos que Buscavam o Cristianismo do Novo Testamento

Entre os vários resultados desse mover de Deus que foi o Segundo Grande Reavivamento, destacamos o surgimento de movimentos que resgataram o tema puritanoxxv da restauração do cristianismo primitivo. Os fundadores do nosso movimento não foram os primeiros a buscar a unidade e a simplicidade do cristianismo bíblico. Podemos citar, pelo menos, outros quatro grupos:

1. A Igreja Cristã de James O’Kelly. No dia em 25 de dezembro de 1793, O’Kelly e outros metodistas da Carolina do Norte rejeitaram a imposição do governo episcopal sobre a Igreja Metodista norte-americana e formaram a “Igreja Metodista Republicana”. No ano seguinte eles adotaram, sob a influência de Rice Haggard, o nome de “Igreja Cristã” e tomaram a Bíblia como seu único credo ou regra de fé e prática. Esse movimento se estendeu pelos estados do sul e oeste dos EUA e em 1809 sua membresia era superior a vinte mil fiéis;

2. A Igreja Cristã de Elias Smith e Abner Jones. Um movimento similar ao de O’Kelly, porém independente, surgiu na Nova Inglaterra liderado pelos batistas Elias Smith e Abner Jones. Elias Smith era um pastor batista que ficou insatisfeito com o calvinismo em meio ao debate teológico daqueles anos. Já Abner Jones, em 1801, deixou os Batistas do Livre Arbítrio e iniciou uma Igreja Cristã independente em Lyndon, estado de Vermont, como protesto aos nomes e credos sectários. Após seis anos tinha quatorze congregações e doze ministros;

3. Os Cristãos de Blue Ridge. Em 1823, John Wright, seu líder, foi um personagem decisivo para unir em uma só conferência várias igrejas em Indiana. Eles enfatizavam o nome de “cristãos” ou “discípulos”.

4. Não podemos deixar de mencionar os Batistas da Escócia. Alexander Campbell foi muito influenciado pelo movimento iniciado pelos irmãos Robert Haldane e James Haldane em 1790, reformadores imersionistas escoceses. Eles defendiam “um reavivamento evangélico e um maior zelo missionário na Igreja da Escócia”.xxvi Os Haldane’s iniciaram uma igreja “independente” em 1799, pregavam a autonomia congregacional e celebravam a Ceia do Senhor semanalmente. James Haldane afirmou em 1805 que “todos os cristãos têm a obrigação de observar as práticas universais aprovadas pelas primeiras Igrejas registradas nas Escrituras”.xxvii O Dr. B. J. Humble escreveu que esse movimento estabeleceu muitas igrejas pela Grã-Bretanha (Escócia, Inglaterra e Irlanda) e, também, nos EUA. Ele também afirmou que o contato de Alexander Campbell com esse movimento se deu através de Greville Ewwing, que estava dirigindo um seminário em Glasgow e se tornou amigo da família.

Porém, o maior movimento de busca do cristianismo bíblico foi iniciado entre os anos de 1801 e 1804 pelo avivalista Barton Stone e outros pastores presbiterianos. Em 1832, as igrejas desse movimento se unificaram com as de um grupo semelhante, mas não igual, organizado em 1809 pelo também pastor presbiteriano Thomas Campbell e Alexander Campbell, seu filho. Nesse movimento, que é a nossa principal raiz histórica, cada igreja local era independente e se designava usualmente de “Igreja Cristã” ou “Igreja de Cristo”.

Extraido da Apostila "Nossa Herança"
Instituto Bíblico Stone-Campbell 
Pedro Agostinho Jr.