Proto-Missionário das Igrejas de Cristo no Brasil - 2

Virgil Frank Smith - Virgilio Smith - aos 25 Anos de IdadeAntes da chegada de Loyd David Sanders ao Brasil para a implantação das Igrejas de Cristo em terras brasileiras, três missionários, da “Church Of Christ” (Não Instrumentais) estiveram por alguns anos evangelizando no nordeste brasileiro, são eles: Orlando Boyer (Autor da Enciclopédia Bíblica); Bernardo Johnson e Virgilio Smit, os três após terem uma experiência com o Espírito Santo, tornaram-se Pentecostais e suas Igrejas no nordeste passaram a denominar-se “Igreja de Cristo Pentecostal” ou “Igreja de Cristo do Brasil” (Igrejas existentes até aos dias de hoje).

Maiores Informações com:
Pr. Ozório R. Gonçalves
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O QUADRO DE UMA VIDA DEDICADA AO SERVIÇO DE DEUS
(Testemunho de Virgilio Smith, em seu livro EVANGELISMO)

Morando nos Estados unidos, eu pastoreava uma boa igreja, quando ouvindo o testemunho de vários missionários, fui movido e procurei saber qual era a vontade de Deus para comigo. E Deus me mandou para o Brasil.

Em setembro de 1927, com 25 anos de idade, cheguei com minha primeira esposa ao Recife, Pe. E dali fomos para o sertão, parando por um certo tempo em Garanhuns onde estudamos português.

Embora sabendo ainda pouco da língua, começamos a viajar, a pé ou a cavalo, visitando casa por casa com Bíblias que oferecíamos pelo preço de custo. Por todo aquele sertão só encontramos seis pessoas que já tivessem visto uma Bíblia.

Depois de algum tempo que estávamos no Brasil chegou outro casal missionário; George Johnson e esposa, que vieram trabalhar conosco.

Fizemos um plano para a realização de uma viagem com duração de várias semanas percorrendo uma distância de mil quilômetros. A primeira parada foi em Santo Antônio da Glória, no Estado da Bahia.

Esperávamos ali encontrar um irmão que conhecia muita gente na cidade, mas ele não apareceu, e foi preciso prosseguir a viagem sozinhos. O povo estava nos esperando e logo soubemos que um grupo de pessoas tinha o plano de nos atrapalhar. Quando procuramos um lugar para pregar, fomos aconselhados a consultar a polícia que fora ali enviada para prender  bandidos do grupo de Lampião. Logo percebemos que o comandante era inimigo do Evangelho.

Como não achamos nenhuma porta aberta, seguimos até Floresta, onde havia um grupo de cristãos. Eram os primeiros frutos daquele campo. Esse trabalho fora começado por um soldado que havíamos batizado em Jatobá, no Estado de Alagoas e ele se tornara ganhador de almas. Levou a Cristo de início um sapateiro que tinha lido uma Bíblia comprada de nós. Depois de lê-la achou tão bom que começou a falar de Jesus aos vizinhos e a todos os que traziam sapatos para consertar.

Batizamos algumas pessoas ali e deixamos uma congregação funcionando.

Dali fomos à Vila Bela, cidade de cinco mil habitantes, totalmente sem o evangelho na primeira tarde vendemos várias Bíblias e anunciamos que pregaríamos na rua às 19 horas. Chegada a hora, começamos a cantar de baixo de uma luz de rua e muita gente veio de todos os lados. Depois, várias pessoas nos pediram que ficássemos mais um dia; e um grupo nos acompanhou até o hotel, onde passamos muito tempo conversando acerca do Evangelho. Na noite seguinte pregamos a trezentas pessoas.

Poderíamos gastar muitas páginas escrevendo sobre as experiência que tivemos no trabalho do Nordeste, como também, as perseguições tremendas por que passamos, mas seria uma narrativa muito extensa. Porém, não podemos nos esquecer de como o povo mostrava ansiedade e desejo de saber mais sobre este Jesus maravilhoso. E eu, sabendo que Deus ama a todos, até ao mais vil pecador, orei pedindo a Ele que me permitisse falar de Jesus para o bandido Lampião. Orei, mas depois me esqueci da oração Deus, porém  não se esqueceu.

Como viajar a cavalo ou a pé já estava sendo difícil, comprei um CABIOLÉ, ou seja, um carro puxado por cavalos, onde seria possível que outros viajassem conosco.

Os cavalos nunca haviam puxado tal carro, e por isso eu precisei treiná-los. E isso aconteceu justamente na época da revolução, quando os soldados haviam saído das cidades para defenderem o litoral. Nessa época estávamos morando em Mata Grande, Alagoas.

Quando Lampião soube que mata Grande estava sem policiamento, foi para lá. Eu, calmamente, saí com o carro para experimentar os cavalos. Quando estávamos a uns três quilômetros da cidade, fomos cercados por um grupo de homens de lampião, que nos fez parar e exigiu 500 contos de réis. Como não tínhamos nem um vintém no bolso, determinaram que mandássemos buscar na cidade. Eu tentei convencê-los de que não tínhamos dinheiro, mas eles nos ameaçaram dizendo para minha esposa: ”Esse é seu marido? Você quer conservá-lo? Então convença-o de escrever o bilhete. E por isso, escrevi um bilhete ao irmão Boyer, que estava na cidade, com  as seguinte mensagem:

“FUI PRESO POR LAMPIÃO NA FAZENDA DOS MALTAS, ELE EXIGE 500 CONTOS DE RÉIS. NÃO MANDE NADA SEM ANTES CONSULTAR A DEUS”.

A esta altura o grupo de bandidos nos havia levado a vinte e cinco quilômetros a frente, onde o próprio Lampião estava escondido.

Enquanto o moço foi até a cidade levando o bilhete, Lampião veio e começou a falar comigo. E na conversa eu mostrei a ele que eu era um anunciador de Jesus, que o amava. Lampião me ouviu com atenção e aceitou alguns folhetos que eu carregava sempre comigo, prometendo que os leria.

Orlando Boyer foi um missionário que chegou ao Brasil na mesma época que eu e que no futuro seria uma dos maiores escritores de livros evangélicos do país.

Ao receber meu bilhete, ele, depois de orar, juntou num saquinho de sal um punhado de moedas, níqueis, e uma notinha de 100 réis, que mandou com a seguinte informação: “Aí vai tudo o que tenho, até o dinheiro das crianças. Sinto muito, mas não tenho mais”. Lampião tirou a notinha de dentro do saquinho e devolveu o restante dizendo: “Tome, não sou cego para pegar moedas. Como o dinheiro é pouco vou levar os seus cavalos”. E, montando nos cavalos saíram nos deixando com mais umas vinte pessoas, que também tinha ali ficado. Para nós, foi um gozo, voltar toda aquela caminhada a pé, cantando e falando de Jesus para aqueles que iam conosco.

Quando chegamos na cidade, já estava escuro, com o barulho do nosso andar, alguém gritou lá de cima: “QUEM VEM LÁ”? Pensando que fosse Lampião e seu grupo. “É o Virgílio”, foi a resposta. As pessoas então desceram correndo e vieram nos abraçar dizendo: “Vocês estão vivos? Foi milagre! Foi milagre!”

Tempos depois, o irmão George Johnsom estava numa vila, onde havia organizado um serviço agrícola, para ajudar aqueles que estavam sofrendo com o resultado da seca.

Um dia, logo depois do almoço, Johnsom viu pela janela uns homens a cavalo que se aproximavam. Avisou a alguns irmãos que estavam no quarto e pediu-lhes que ficassem calmos e orassem. Veio sobre todos uma calma impressionante. Doze dos que estavam assentados no assoalho almoçando, sem se mexerem, baixaram as cabeças e começaram a orar. Johnsom percebeu que o grupo rodeava a casa. Sua aparência era bárbara, assustadora. Cabelos compridos despontavam por debaixo dos chapéus de couro enfeitados com ornamentos de ouro. Tinham na mão uma espingarda militar, na cintura uma pistola e um punhal comprido além de várias bolsas e uma cinta de balas.

Um dos homens levava um ferrete que, aquecido em brasa, era utilizado para marcar pessoas, especialmente, moças que usavam vestidos curtos. Johnson já havia visto uma moça que tinha as letras J.B (José Baiano) queimada no rosto.

Diante de tanto horror, Johnsom sentiu por uns minutos seu corpo estremecer, Fazendo, porém, uso de toda a sua fé, respirou profundamente, e, aproximou-se do homem que estava na porta e convidou-o a almoçar com eles.

Por alguns instantes o silêncio foi profundo, até que Johnsom não agüentando mais, começou a fazer-lhe perguntas e ele foi respondendo amigavelmente. Soube depois que seu interlocutor era o Mariano.

Em seguida, entraram na casa, e começaram a remexer nas mesas e gavetas, perguntando aos que ali estavam, se Johnsom tinha dinheiro. Responderam que sabiam que ele havia gasto muito naqueles dias e que achavam que não tinha. A única coisa de valor que encontraram foi uma Bíblia e um Novo Testamento.

Mariano recolheu os dois livros para levá-los e deu a oportunidade para que Johnsom lhe ensinasse alguma coisa da Palavra de Deus. Conforme viemos a saber, Lampião passou a carregar aquela Bíblia todo tempo.

Um dia ele chegou numa fazenda, e, como estava chovendo, escondeu a Bíblia num buraco de uma árvore e foi embora. Mais tarde voltou para pegar a Bíblia, mas não a encontrou,. Então, foi ao fazendeiro e disse: “eu guardei outro dia minha Bíblia naquela árvore, e não está mais lá. Eu sei que foi você que pegou, devolve minha Bíblia ou você é um homem morto. Um soldado havia levado a Bíblia, de modo que o fazendeiro teve que viajar longe para buscar outra, a fim de salvar a sua vida.

Soubemos que Lampião, no fim da sua vida, havia dito que desejava largar o cangaço. Quem poderá afirmar que ele não tenha se arrependido pela leitura da Bíblia?! Não será surpresa, se ao chegarmos lá no Céu, encontrarmos Lampião!

Não há dúvida de que estávamos ganhando almas por aquele sertão afora, mas sentimos que faltava alguma coisa para o maior empenho no trabalho do Mestre.

Um moço que se converteu ao ouvir o Evangelho, passou a morar em nossa casa, porque sua família era contrária à sua decisão. Andando conosco por muitos lugares foi aprendendo. Um dia sentiu vontade de viajar para a cidade onde sua mãe morava, para lhe anunciar Jesus. Infelizmente não teve nenhum êxito e retornou passando por Recife. Lá ao assistir um movimento evangelístico pentecostal, ficou muito entusiasmado com as manifestações do poder de Deus que viu e começou a pedir a Deus aquele poder. Ao chegar em casa nos relatou o que tinha visto, mas como nós não entendíamos o assunto, nada pode ser acrescentado a questão. João foi dormir e nós também.

No dia seguinte, pela manhã, estávamos prontos para tomar o café quando ouvimos um som vindo do quarto do João. Dirigindo-nos ao quarto, fomos encontrá-lo de joelhos, com o rosto no chão e dizendo: “Ó SENHOR, COMO TU ÉS BOM, É SENHOR, COMO TU ÉS BOM.” Cheguei perto dele e perguntei: “João, o que aconteceu? Mas ele não me deu atenção e continuou  dizendo: “Ó Senhor, como tu és bom”.

Depois de bastante tempo, disse: “Estou petrificado”. Ajudamo-lo a se levantar e havia poder naquele ambiente. Fomos até a varanda para tomar o café e João Nunes começou a contar o que havia acontecido com ele e como recebera o batismo com o Espírito Santo. Sentimos tanta alegria e poder, que caímos de joelhos e começamos a orar e quando paramos já era meio dia. E nós nem tínhamos tocado no café. Percebemos, então, que ali estava a chave que facilitaria o trabalho de ganhar almas para Jesus Cristo.

Diante da maravilhosa experiência de João Nunes, começamos também a buscar o batismo com o Espírito Santo. Um dia quando fazia uma viagem em lombo de burro, por um caminho no meio do serrado, senti grande desejo de orar. Parei, desmontei do animal amarrando num galho de árvore, e me ajoelhei ali na areia de um rio seco e comecei a orar. De repente senti que a oração estava ficando cada vez mais gostosa e percebi que não estava falando nem português nem inglês. A alegria que sentia não tinha explicação. Permaneci ali por mais um pouco orando e em seguida montei novamente no burro, sem contudo parar de falar naquela língua misteriosa que Jesus havia me dado, isto por todo o resto do caminho.

Todos os que haviam aceitado a Jesus no Nordeste começaram a buscar o batismo como Espírito Santo. A oração tornou-se o ponto principal no trabalho. Como aquele povo gostava de orar!

Em 1940 fui convidado para ir a Santa Catarina tomar conta de um trabalho iniciado pela Assembléia de Deus.

Deixando os trabalhos do nordeste com colegas fomos para Joinville, Santa Catarina.

Ali chegando, organizamos um fundo de evangelização para sustentar um obreiro que percorreria todas aquelas cidades ganhando almas para Jesus e firmando congregações. Adotamos um Slogam:”Em todas as cidades onde houver agência do correio, será fundada uma congregação”. E assim foi.

Em 1953 fui para São Paulo, onde Deus abriu as portas para que pudesse ver a realidade do trabalho evangelístico que produz uma grande carga de frutos!

MOVIMENTO DA RESTAURAÇÃO
UM TESTEMUNHO

 Prevalece entre quase todos os estudiosos de todas as ramificações da cristandade a convicção de que o cristianismo primitivo, apostólico, tem sofrido grandes modificações durante os séculos. Estas modificações são óbvias em todas as áreas de crença e prática cristãs em todos os períodos históricos, inclusive o nosso tempo. Por isso, a doutrina, experiência, mistério, vida, organização das igrejas, quer sejam católicas, protestantes, evangélicas ou ortodoxas, de nosso tempo, não são perfeitamente primitivas, apostólicas ou neotestamentárias.

Porém, desde tempos remotos, têm se levantado homens e movimentos dedicados à restauração da ordem primitiva, apostólica e neotestamentária e sempre obtiveram relativo sucesso.

Eu nasci, a primeira e segunda vez, dentro de um movimento de restauração nos Estados unidos. Esse movimento conseguiu uma repercussão muito grande no mundo religioso dos Estados Unidos da América que, dela, se espalhou para o mundo inteiro. Eles procuraram sinceramente, com grande dedicação e esforço, devolver ao mundo uma igreja inteiramente apostólica e neotestamentária. Milhões de pessoas de todas as camadas da sociedade americana agregaram-se a este movimento e continuam firmes até hoje.

Eu fui ensinado por meu pai, e meus professores nas escolas que freqüentei, que nossa igreja era verdadeiramente apostólica e neotestamentária em todo sentido. Por muito tempo, a mim, como menino e adolescente, sem meditar muito em nada, não ocorreu outra idéia e, finalmente, quando, lendo o Novo Testamento, conheci alguma das experiências que nós não tínhamos, não me preocupei em saber por que. Mais tarde, quando já era obreiro e estudava a palavra com propósito sincero e definitivo a minha consciência não me deixava passar por cima de certos fatos, sem uma consideração pessoal e sincera. Notava que os discípulos primitivos, apostólicos, sempre falavam em ser “cheio do Espírito Santo”. Por exemplo, em Atos 13:52 li, “ E os discípulos estavam cheios de alegria e do Espírito Santo”, mas eu nunca tinha ouvido ninguém falar em ser “cheio do Espírito Santo”. A partir daí, comecei a perceber que sobre muitas coisas preciosas do Novo testamento e da experiência dos discípulos neotestamentários, eu nem sequer tinha ouvido falar. Toda a ordem e vida primitiva, apostólicas, não tinham sido restauradas.

Mas o movimento de restauração não cessou. Continua e deve continuar. Tenho a convicção firme de que a verdade está no Novo Testamento e que a ordem de vida apostólica são as certas. Ainda sou do movimento de restauração. Quero a vida, ordem doutrina, experiência, enfim o cristianismo primitivo, apostólico e neotestamentário. “Não que já tenha alcançado, ou seja, perfeito; mas prossigo para alcançar aquilo para o que fui também preso por Cristo Jesus.” (Fil 3.12).

virgil_frank_smith_foto2.jpgNota:
Virgilio Smith, após dedicar uma vida inteira na evangelização do Brasil pela Assembléia de Deus terminou seus anos de vida na Igreja de Cristo em Brasília-DF (EQS 305/306 Sul) como professor de evangelismo na Faculdade Teológica Cristã do Brasil. (www.ftcb.com.br).

Virgilio, nascido em 07/10/1902 nos EUA, faleceu em 20/12/2000 em Brasília-DF. Com 98 Anos. – Sua esposa Gail Smith – freqüenta atualmente a Igreja de Cristo em Brasília.