As controvérsias e as divisões no Movimento de Restauração

AS CONTROVÉRSIAS E AS DIVISÕES NO MOVIMENTO DE RESTAURAÇÃO

 


Como dissemos anteriormente no artigo "A união dos movimentos de Stone e Campbell e o seu crescimento inicial", os editores foram muito importantes para o nosso Movimento. E nas controvérsias que abalaram a irmandade, eles tiveram um papel ainda mais decisivo, pois os irmãos iam tomando posição a favor ou contra um ou outro.

Segundo Fernando Soto, os EUA têm uma característica que, para ele, pode ser a origem das divisões do nosso Movimento: a diferença que existe entre o norte e o sul. Confira as suas próprias palavras:

“O norte sempre foi progressista, industrializado e economicamente mais rico. O sul era agrícola, tradicional e dependente dos recursos econômicos e tecnológicos do norte. Terminada a Guerra de Secessão em 1865, o sul ficou muito empobrecido e ressentido contra seus irmãos do norte. Foi assim que, devido a abundância de recursos, as igrejas do norte puderam construir belos locais de reunião aos que se incorporaram órgãos. Também, devido a sua prosperidade, se permitiram contratar pastores com boa preparação acadêmica e bíblica para trabalhar em tempo integral no ministério cristão. As igrejas do sul e da fronteira, ao contrário, tinham um ancião como pregador dominical ao qual apoiavam financeiramente pouco ou nada. Essa diferença nos explica a controvérsia suscitada em diversas áreas: o uso de instrumentos musicais na adoração, a construção de “templos”, a criação de institutos bíblicos, a contratação de um pastor, etc. Os grupos a favor e contra foram ficando cada vez mais apaixonados e as feridas foram criadas irremediavelmente”.1

Podemos, ainda, citar como uma outra razão para a divisão do movimento a amargura decorrente da Guerra Civil.

I. A Controvérsia Sobre as Sociedades das Igrejas para a Cooperação

A primeira grande controvérsia na Igreja de Cristo foi a respeito das sociedades que promoviam a colaboração entre as igrejas nas mais diversas áreas (missionárias, bíblicas e etc.). Alexander Campbell, que foi o nosso principal organizador e teólogo, escreveu entre os anos de 1831 e 1832 sete artigos sobre a colaboração entre igrejas. O Dr. B. J. Humble resumiu o pensamento de Campbell sobre esse assunto da seguinte maneira:

“Campbell cria que o mundo nunca poderia ser evangelizado a menos que as igrejas colaborassem com a proclamação do Evangelho e seus artigos eram um chamamento à colaboração. Campbell argumentava que o Novo Testamento provia exemplos de igrejas colaborando com outras (2Co 8) e isso estabelecia uma autoridade escritural para a colaboração da igreja”. 2

Alexander Campbell estava correto ao afirmar que as Escrituras fornecem a base bíblica do princípio da cooperação. Podemos ver esse princípio sendo aplicado na solução de problemas na eleição de Matias como substituto de Judas (At 1:12-26), na assistência às viúvas pobres (At 6:1-6), no relato da conversão dos primeiros gentios (At 11:1-18), nas questões doutrinárias polêmicas com a formação do primeiro concílio das Igrejas de Cristo (At 15:1-35), na expansão do Reino de Deus com o envio de missionários (At 13:1-3), no sustento dos mesmos (2Co 11:8-9; Fp 2:25; 4:15-18), no encontro em Trôade (At 20:4-7), no relatório da primeira viagem missionária (At 14:21-28), também podemos ver a cooperação como meio de assistência às igrejas (At 12:22-26; 14:21-23; 2Co 11:28). Humble continua resumindo o pensamento de Campbell sobre esse assunto dizendo que ele:

“sugeriu como um exemplo de como as igrejas poderiam trabalhar juntas: que todas as igrejas em seu próprio condado poderiam ter uma reunião geral, anual, na qual se fariam planos para evangelizar a área, se escolheria um evangelista e se planejava o seu sustento”.3

Assim, a década de 1830 foi marcada pela adoção gradual da colaboração de igrejas.

Em 1841, Campbell começou a escrever uma série de dezesseis artigos com o título “A Natureza da Organização Cristã”. No fim, em 1843, ele fez um chamado à organização e propôs “o estabelecimento de uma “organização geral” entre as igrejas. A igreja, argumentava Campbell, é descrita como “o corpo de Cristo” e um corpo deve ser necessariamente organizado”. 4 Para ele, essa “organização geral” deveria ser fruto do consenso das igrejas e não poderia ser imposta sobre nenhuma igreja local.

Benjamin Franklin, e o seu “American Christian Review”, foi um opositor radical das sociedades, embora no início tenha sido favorável. No entanto, a maioria das publicações da irmandade foi favorável à colaboração das igrejas nas sociedades.

Como dissemos no capítulo anterior, David Burnet organizou a Sociedade Bíblica em 1845 e a Sociedade da Escola Dominical e Tratados. E a Primeira Convenção Nacional, em 1849, determinou a formação da Sociedade Missionária Cristã Americana.

Segundo escreveu Fernando Soto, o primeiro missionário enviado foi o Dr. James Barclay, proprietário de escravos, mandado para Jerusalém. O segundo foi J. O. Beardslee, um abolicionista, enviado para a Jamaica. E o terceiro missionário foi Alexander Cross, um escravo que a Sociedade comprou, educou e enviou para Libéria, na África. 5 Pelo visto, a diversidade entre os “Discípulos” não era apenas no campo doutrinário, mas também no campo econômico, social e cultural. E isso não foi um obstáculo à unidade.

Em 1875 Isaac Errett e W. T. Moore lideraram a organização da Sociedade Cristã de Missões Forâneas. Logo havia missões na Dinamarca, França, Índia, Inglaterra, Japão, Panamá e Turquia. Errett foi eleito presidente, cargo que exerceu até o seu falecimento em 1888.

Os opositores da cooperação continuaram com suas posições, inclusive não cooperando com as Sociedades. Ninguém foi afastado da comunhão por isso, pelo contrário. No entanto, esse foi um dos fatores que levaram à divisão do movimento posteriormente.

II. A Controvérsia Sobre a Música Instrumental

No início do nosso movimento não houve nenhum debate a respeito do uso de instrumentos musicais na adoração. Como a maioria das igrejas evangélicas da época, não se usava instrumentos, pois um órgão – o instrumento mais usado nas igrejas daquele tempo – era muito caro e somente as igrejas mais ricas podiam ter um. Fernando Soto disse que em nosso movimento “as igrejas da fronteira não contavam com órgãos, eles não eram adequados para ser carregados em uma diligência, mas a medida que a estrada de ferro chegou mais adiante das Montanhas Apalaches se puderam transportar móveis e mercadorias, entre eles pequenos órgãos manuais e harmônios”. 6

A primeira discussão que se tem notícia na irmandade se deu em 1851 e foi registrada no periódico “Ecclesiastical Reformer”, editado por J. B. Henshall. Um leitor perguntou se a música instrumental não seria um acréscimo à adoração. Henshall se posicionou contra, mas permitiu a publicação de outros artigos favoráveis ao uso. Naquela ocasião, Alexander Campbell, inquirido sobre o assunto disse que para “as igrejas que não tinham uma devocional ou espiritualidade real a música com instrumentos para a adoração podia ser um requisito essencial”.7 Ele, com essa declaração, penso eu, não aprovou o seu uso, mas não podemos dizer que Campbell afirmou ser contrário às Escrituras o uso de instrumentos, como veremos mais adiante através do posicionamento do seu periódico quatorze anos depois.

Entre 1864 e 1865 se deu a primeira grande controvérsia sobre esse assunto, pois algumas igrejas começavam a introduzir órgãos na adoração. A primeira foi a igreja em Midway, Kentucky, em 1859. Embora concordando que a música instrumental não foi usada nos primeiros séculos da era cristã, Alexander Campbell e W. K. Pendleton, co-editor do “Arauto do Milênio”, além de A. S. Hayden, concordaram que esse assunto era de simples conveniência. Isaac Errett, inclusive, afirmou que não há nenhuma lei contra os instrumentos. Para ele esse assunto era de opinião e não de fé, “e que ninguém tinha o direito, por nenhum lado, de considerá-lo uma prova de comunhão”.8

Já Moses E. Lard, Benjamin Franklin, J. W. McGarvey e David Lipscomb se posicionaram radicalmente contra o uso dos instrumentos. Os debates se concentraram nas igrejas do norte, pois no sul, devido a influência do “Gospel Advocate”, de David Lipscomb, as igrejas rejeitaram desde o princípio os instrumentos. Limpscomb, Lard, Franklin, McGarvey e outros estavam usando os princípios elaborados pelo jovem e polemista Alexander Campbell no começo do movimento para fundamentar suas opiniões. O próprio Benjamin Franklin reconheceu que as atitudes da irmandade estavam mudando. E David Lipscomb, ironicamente, dizia que quem apoiava as Sociedades Missionárias podia introduzir instrumentos sem nenhum problema.

A discussão se radicalizou e houve quem propusesse a proibição da comunhão com aqueles que introduziram instrumentos. Ainda hoje há quem diga que não terá comunhão com àqueles que introduzirem instrumentos na adoração, embora possa os considerar irmãos. Talvez “irmãos no erro”. Naquela época, Moses E. Lard, sintetizando o espírito de intolerância que alguns encarnaram nesse e em outros assuntos, estabeleceu três regras em relação ao uso dos instrumentos musicais na adoração: 9

1) Nenhum pregador deve entrar em uma igreja onde haja um órgão;
2) Ninguém deve se apresentar com uma carta de transferência a uma igreja que use órgão, porque é melhor viver sem igreja que se meter em uma pocilga;
3) Quando em uma igreja se introduza o uso de um órgão, os que se opõe deveriam fazê-lo gentilmente, se não os ouvirem devem abandonar a igreja sem nem pedir uma carta de transferência.

Lamentavelmente, ainda hoje, no século XXI, têm irmãos que se referem aos que não têm nenhuma objeção ao uso de instrumentos (ou qualquer outro assunto de opinião) com grosserias semelhantes as acima citadas, tais como ser acusado de heresia ou ser chamado de ex-irmão.

Walter Yancey, conhecido escritor das Igrejas de Cristo (A Capella) disse:

“Nossa posição acerca da música instrumental tem feito mais dano a nossa reputação que qualquer outro assunto. Ao tomar esta nossa posição, a qual é obviamente errada (para todo o mundo, menos para nós), temos destruído a credibilidade de nossa interpretação total da Bíblia e tem arruinado nossa reputação na cristandade... as pessoas não nos vão tomar a sério, principalmente porque temos destruído nossa credibilidade com o assunto da música”. 10

Sou como os que consideram o uso de instrumentos musicais na adoração como um assunto de opinião e não de fé. Considero os que pensam diferente de mim como irmãos em Cristo e com os quais quero ter comunhão, apesar das nossas divergências. Jamais irei impor a concordância com as minhas opiniões como uma condição para a comunhão. Como membro de uma Igreja de Cristo que usa os instrumentos musicais na adoração, quando vou pregar ou visitar uma igreja a capella adoro ao Senhor – em espírito e em verdade – com os irmãos. Jamais exigirei, com arrogância ou com muitíssima educação, que mudem suas práticas como condição para eu ir adorar com eles. Eu rejeito a intolerância e todo espírito sectarista. E você, o que acha? Devemos repetir os erros do passado, radicalizar as nossas posições, excomungar uns aos outros? Ou aprender com eles?

III. As Amarguras Decorrentes da Guerra Civil

A Guerra de Secessão dividiu os EUA em uma guerra civil fratricida entre norte e sul. O norte que queria a libertação dos escravos e o sul que queria manter o sistema escravocrata. Igrejas evangélicas históricas, como batistas e metodistas, se dividiram “antes da guerra civil por razões políticas relacionadas à escravidão, é por isso que temos os batistas do sul e os do norte”. 11

Em 1860 as igrejas do nosso movimento somavam mil e duzentas congregações no norte e oitocentas no sul. Muitas delas estavam concentradas nos estados da fronteira entre o norte e o sul como Kentucky (quarenta e cinco mil irmãos) e Missouri (vinte mil crentes). As famílias e as igrejas se dividiam.

Entre os anos de 1861 a 1863, a Sociedade Missionária Cristã Americana aprovou resoluções favoráveis àqueles que defendiam a causa abolicionista. Benjamin Franklin afirmou que com essa atitude a Sociedade abandonou seu trabalho legítimo e desde então se tornou o seu mais forte opositor. 12

Em 1866, um anos após o fim da guerra, Tolbert Fanning sugeriu que os cristãos do sul fizessem uma grande reunião geral de consulta para avaliar a igreja. Ela aconteceu em Murfreesboro, Tennessee, em junho sem a participação dos irmãos do norte, pois eles não haviam sido convidados. No mesmo ano, David Lipscomb, em seu periódico “Gospel Advocate” escreveu sobre o fato da Sociedade ter apoiado o norte:

"Encontramos somente um espírito vingativo e homicida governando seu conselho e apoiando o trabalho cristão (?) dos cristãos do norte em roubar e matar os cristão do sul..."13

Como você observou, as amarguras da guerra civil deixaram sérias feridas entre os irmãos. Não faz muito tempo, inclusive, que o reitor da Universidade Cristã de Abilene, no Texas, onde muitos dos missionários estudaram e uma das mais conceituadas instituições de ensino superior ligadas às Igrejas "a capella", pediu perdão pelo apoio que os irmãos e as igrejas do sul deram à escravidão. Seguindo, assim, o exemplo de outras autoridades eclesiásticas, como o Papa João Paulo II, que pediram perdão pelos erros do passado da sua denominação. Ainda hoje nos EUA há igrejas exclusivamente de afro-americanos (raça negra). Nos EUA, como no Brasil, a integração racial é um desafio para ser superado com a ajuda de Deus. Amém.

IV. As Divisões

Vimos acima que houve uma sensível mudança na teologia e na prática de Alexander Campbell e dos “Discípulos”, que associada à Guerra Civil Americana foram os principais fatores que apressaram a divisão em nosso movimento. Segundo o Dr. B. J. Humble,

“o Departamento de Censos dos Estados Unidos reconheceu oficialmente a realidade de uma divisão entre as Igrejas Cristãs e Igrejas de Cristo em seu censo religioso de 1906, publicado em 1910”. 14

Ele continua:

“Em 17 de julho de 1907, S. N. D. North, diretor de censos escreveu a David Lipscomb e lhe perguntou se havia um corpo religioso chamado “igreja de Cristo” não identificado com os discípulos de Cristo, ou qualquer outro grupo batista. E se acaso houvesse tal igreja, North desejava informação sobre sua organização e princípios, e como o departamento de Censos poderia conseguir uma lista completa de igrejas. Respondendo a carta de North, Lipscomb esboçou os princípios básicos do movimento de restauração de acordo com a “Declaração e Discurso” de Thomas Campbell. Em seguida Lipscomb afirmou que esses princípios haviam sido traídos quando se introduziu a sociedade missionária e o instrumento musical”. 15

David Lipscomb ainda explicou que, por serem “igrejas puramente congregacionais, as influências operaram lentamente e a divisão ocorreu gradualmente”. 16

Existem hoje nos EUA três igrejas cuja principal raiz histórica é o Movimento Stone-Campbell: a Igreja Cristã (Discípulos de Cristo), as Igrejas de Cristo (A Capella) e as Igrejas Cristãs e Igrejas de Cristo. Uma só nascente e três rios.

 


Pedro Agostinho Jr.,
Pastor da Igreja de Cristo
www.opresbiterocristao.blogspot.com

Referências:

1. SOTO, Fernando. La Reforma Presente, pág. 104.
2. HUMBLE, Dr. B. J. La Historia de La Restauración, pág. 22.
3. Ob. cit., pág. 22.
4. Ob. cit., pág. 23.
5. Ob. cit., pág. 82-83.
6. SOTO, Fernando. La Reforma Presente, pág. 104.
7. HUMBLE, Dr. B. J. La Historia de La Restauración, pág. 28.
8. Ob. cit., pág. 105.
9. SOTO, Fernando. La Reforma Presente (citando "The Stone-Campbell Movement: Na Anedoctal History of Three Churches" de Leroy Garrett, 467), pág. 104.
10. Ob. cit. (citando "In Search of Christian Unity: A History of The Restoration Movement" de Henry E. Webb, 420, nota 24), pág. 109.
11. Ob. cit., pág. 105.
12. HUMBLE, Dr. B. J. La Historia de La Restauración, pág. 26.
13. Ob. cit., pág. 27.
14. Ob. cit., pág. 35.
15. Ob. cit., pág. 35 e 36.
16. Ob. cit., pág. 36.