Os "Ministérios" nas Igrejas de Cristo no Brasil

No início das Igrejas de Cristo nos EUA, por volta de 1801, não havia nenhum tipo de sociedade ou associação de igrejas ou ministros. Pelo contrário, os pioneiros do nosso Movimento estavam rompendo com as sufocantes estruturas denominacionais daquela época e adotando o sistema congregacional como forma de governo da igreja, embora a maioria absoluta das igrejas mantivessem o governo local nas mãos de um conselho de pastores (presbíteros, bispos ou anciãos) distinguindo-se assim dos batistas e outros congregacionais.   Foi Alexander Campbell que estimulou a formação das sociedades para a colaboração entre as igrejas. Entre os anos de 1831 e 1832 ele escreveu sete artigos sobre o assunto e argumentando que o Novo Testamento dava exemplos da colaboração entre igrejas. A década de 1830 foi marcada pela adoção gradual da colaboração de igrejas nos EUA. A partir de 1841 Alexander Campbell escreveu uma outra série artigos intitulada “A Natureza da Organização Cristã” e que defendia a colaboração. Em 1843 ele fez um chamado à organização e propôs “o estabelecimento de uma “organização geral” entre as igrejas. Para Campbell, essa “organização geral” deveria ser fruto do consenso das igrejas e não poderia ser imposta sobre nenhuma igreja local. A maioria das publicações da irmandade e igrejas locais foram favoráveis à colaboração.

Então, David Burnet organizou a Sociedade Bíblica em 1845 e a Sociedade da Escola Dominical e Tratados. A primeira Convenção Nacional em 1849 determinou a formação da Sociedade Missionária Cristã Americana. Isaac Errett e W. T. Moore lideraram em 1875 a organização da Sociedade Cristã de Missões Forâneas. Todavia, os opositores da cooperação continuaram com suas posições, inclusive não cooperando com as "sociedades". Ninguém foi afastado da comunhão por isso. No entanto, esse foi um dos fatores que levaram à divisão do nosso Movimento posteriormente pelas igrejas "anti" (anti-instrumental, anti-cooperação, anti-participação das mulheres...).   Quando a Igreja de Cristo chegou no Brasil com o Pr. David Sanders, enviado pela Igreja Cristã / Igreja de Cristo (Discípulos Independentes) dos EUA, manteve essa característica do nosso Movimento, ou seja, o sistema de governo congregacional com pastores nas funções de ensino e governo e a tradição de colaboração entre as igrejas locais. Muito embora no início não havia nenhuma "sociedade", "associação" ou qualquer outra entidade de colaboração entre as igrejas locais ou ministros.   O Pr. Ozório Gonçalves no artigo "História das Igrejas de Cristo no Brasil" descreve o surgimento das primeiras instituições de ensino, comunhão e cooperação na nossa irmandade. Como exemplo dessas instituições podemos citar a MCB - Missão Cristã do Brasil; a FTCB - Faculdade Teológica Cristã do Brasil; os congressos de jovens (COMIC), mulheres e homens; o Concílio Ministerial das Igrejas de Cristo no Brasil e a Convenção Nacional. Todavia, há aproximadamente trinta anos surgiu em nossa irmandade um outro tipo de "associação" ou "sociedade" entre igrejas locais que é tipicamente brasileira e contemporânea: os "ministérios".

Segundo Sarah Barros no artigo "Obreiros treinados, igrejas plantadas" o primeiro ministério nas Igrejas de Cristo no Brasil foi o Nova Terra que é a associação coordenada pela Igreja de Cristo em Pires do Rio - GO. A escritora citada transcreve as palavras do Pr. Ulisses de Oliveira, presidente do Ministério Nova Terra, dizendo que o ministério "surgiu de maneira natural à medida que obreiros eram enviados ou famílias se mudavam da cidade, abrindo igrejas no local onde estavam... e que estas igrejas eram ligadas por um vínculo construído a partir da convivência na igreja sede, mas não são impedidas de se tornarem independentes".

Sarah Barros também cita Earl Francis (Francisco) Haubner, na época presidente do Ministério Novo Horizonte (Goiânia - GO). Sobre este ministério o Pr. Francisco Haubner disse que "o objetivo principal é capacitar as pessoas responsáveis pelo desenvolvimento do trabalho na nova igreja... e que essas igrejas têm administração independente, estando ligadas apenas pelo fato de utilizarem o mesmo método de trabalho e estarem sob a supervisão da Igreja de Cristo no Novo Horizonte".   Além dos ministérios acima citados há ainda vários outros tais como o Ministério Nova Vida presidido pelo Pr. Ozório Gonçalves (Igreja de Cristo em Samambaia - DF e com atuação no Distrito Federal, Goiás, Minas Gerais, Paraíba, Bahia e Pernambuco), o Ministério Rio de Vida presidido pelo Pr. Jeff Fife (Igreja de Cristo Rio de Vida em Campo Limpo Paulista - SP e com presença em vários estados) e o Ministério Vida Nova (com atuação no centro-oeste e norte do país).   Assim como Alexander Campbell, cremos que a Bíblia Sagrada fornece os princípios para a cooperação entre as igrejas. Podemos ver esse princípio sendo aplicado na solução de problemas como na eleição de Matias como substituto de Judas (At 1:12-26), na assistência às viúvas pobres (At 6:1-6), no relato da conversão dos primeiros gentios (At 11:1-18), nas questões doutrinárias polêmicas com a formação do primeiro concílio das Igrejas de Cristo (At 15:1-35), na expansão do Reino de Deus com o envio de missionários (At 13:1-3), no sustento dos mesmos (2Co 11:8-9; Fp 2:25; 4:15-18), no encontro em Trôade (At 20:4-7), no relatório da primeira viagem missionária (At 14:21-28), também podemos ver a cooperação como meio de assistência às igrejas (At 12:22-26; 14:21-23; 2Co 11:28).   Nos EUA os irmãos, motivados pelos escritos de Alexander Campbell, formaram as "sociedades" e as "associações". No Brasil formamos as nossas mais variadas instituições e os "ministérios". Como Campbell cremos que nenhuma "sociedade", "associação" ou "ministério" deve ser imposto sobre a igreja local ou venha interferir na sua autonomia. Também cremos que nenhum outro nome deve ser exaltado acima do nome de Cristo, pois se agirmos assim estaremos estimulando na igreja a cultura secular contemporânea que estimula a competitividade e acende a fogueira das vaidades.

O Pr. Ulisses de Oliveira, no artigo "Obreiro treinados, igrejas plantadas" de Sarah Barros, "defende a ação dos líderes dos ministérios em conjunto com o Concílio Ministerial das Igrejas de Cristo no Brasil no sentido de promover a unidade e a comunhão entre todas as igrejas, evitando o isolamento delas". Por fim, a escritora cita literalmente as palavras dele, e com as quais encerramos este artigo, afirmando que "acima do nome do ministério está o do movimento Igreja de Cristo. Isto deve ser preservado".

Pedro Agostinho Jr.,
Ministro do Evangelho de Cristo