O Espírito Partidário


O ESPÍRITO PARTIDÁRIO

W. CARL KETCHERSIDE

“Agora as obras da carne são manifestas… discórdia, ciúmes, ira, egoísmo, dissensões, facções… Eu advirto-o, como eu o adverti antes que aqueles que fazem tais coisas não herdarão o reino de Deus” (Gálatas 5:19, 21).
   
O espírito partidário é uma obra da carne. É descrito com outras coisas que excluirão do céu. Isto deve fazer com que examinemo-nos para ver se estamos livres de sua influência. Devemos estar dispostos a crucificar a carne com suas paixões e desejos. Mas o espírito partidário é muito decepcionante. Aqueles que ostentam bem alto sua liberdade, dele são freqüentemente as vítimas mais trágicas de seu veneno. Como podemos saber se estamos com ele? Sugerimos algumas características de sua presença.

Sintomas do espírito partidário

1. Uma relutância para admitir as verdades pregadas por outros. A verdade é verdade, não obstante quem a pregue. O partidário está receoso em reconhecer a verdade pregada por aqueles fora de seu grupo com medo de que isto refletirá favoravelmente para eles. Se admitir a verdade dita pelo outro, deve apressadamente falar de forma depreciativa da pessoa ou de alguma outra posição que ele prega. Se alguém observar que Billy Graham falou a verdade em sua luta contra o pecado em uma estação de rádio, o partidário responde, “sim, mas olhe todo o dinheiro que ele pede”. Se questionado a respeito de quanto Graham gasta em seu programa de rádio, o partidário não pode dizê-lo. Não sabe, mas procura deslocar o fato da verdade falada, criando a suspeita contra o homem e seus motivos. Ninguém no grupo que o partidário pertence prega falsamente sobre dinheiro, porém aquele que é membro de algum outro partido religioso e que fala a verdade, seria falso, porque sabe melhor, e seu único objeto é inflar seu orgulho e almejar o lucro.

2. Incapacidade de alegrar-se pelo bem feito pelo outro. Parece que alguns preferem ver homens atolados no lamaçal da miséria do que vê-los bem com a ajuda de outros. “Passam pelo outro lado” e então afronta o “Samaritano” que cuidou e aliviou o ferido e desolado. Diz a bíblia, “cruzam a terra e o mar para fazer um prosélito, e fazem-lhe então duas vezes mais dignos do inferno do que eles mesmos”. Eu me oponho à música instrumental no serviço público de louvor da congregação, mas nunca me alegrarei em ver um homem permanecer na embriaguês, ou bater em sua esposa e filhos, do que em ser conduzido à fé em Cristo por alguém que difere de mim na música instrumental.

3. De má vontade ouve ambos os lados de uma questão. A seita Católica procura manter seu exclusivismo estreito recusando permitir seus membros de ler qualquer coisa que se opõe à sua tradição. O padre pode ler o que quiser, mas o leigo não é permitido fazer isto. Ainda, em Paragould, Arkansas, um ministro “na igreja de Cristo” esteve no púlpito e recomendou sua congregação devolver cópias do livro “conversa da Bíblia” e do “Mensageiro da Missão” sem leitura deles, embora os lesse a toda hora. Eu conheço um pregador que cancelou sua subscrição a um destes jornais, contudo mal pode esperar até que chegue o jornal em suas mãos. Quer apenas estar “preparado” quando for questionado, ele diz, “eu não subscrevo para seu jornal”. Os homens livres em Cristo não estão receosos em ler qualquer coisa, ir em qualquer lugar ou ouvir qualquer um. (Com a graça de Deus! – nota do tradutor)

4. Uma tendência em abandonar a busca pela verdade e se satisfaz onde está.  Perguntei a um irmão, como a causa da restauração estava progredindo em alguma área, e disse-me que não estavam progredindo, eles já tinham chegado! Todos os séculos tinham sido jogados inteiramente fora. Não havia nada a aprender, nenhuma descoberta nova a ser feita. Tudo que era necessário era papagaiar os mesmos esboços de sermão, aplicar mal as Escrituras da mesma forma, defender as mesmas falácias de raciocínio; confundir com os mesmos costumes e tradições em lugar da palavra de Deus, e agitá-los com as mesmas emoções falsas na congregação. Cada reforma na história terminou com alguma seita; cada seita proclama que chegou em Jerusalém e persegue aqueles que o convidam a despertar e se mantêm avante na marcha e para cima. Não há nada que incomoda mais uma seita do que olhar ao redor e ver alguém que se recusa ser transformado em um sectário. Um partidário real não procura pela verdade. Não necessita fazer isto. Seu partido sobe ao pico mais elevado da realização espiritual. Não há nada além que o desafia a pensar ou estimular seu intelecto. Não há nada adiante, mas uma estagnação e uma deteriorização!

Efeitos do espírito partidário

1. Produz a inconsistência. Não existe uma congregação em que todos os membros concordam em tudo. Divórcio e novo casamento, relação ao governo civil, nossa obrigação para com os não-membros, etc. Em tudo isto, apesar das diferenças, os membros se reconhecem e se convidam para a oração. Às vezes convidamos alguém para participar, cuja vida moral é uma desonra, e cuja conduta é uma fonte constante de problema. É um membro partidário. Mas impedimos alguém de vir, mesmo sendo uma luz brilhante na comunidade, e que vive uma vida de consagração, e é dado tratamento indiferente, porque não compartilha conosco todos os mesmos pontos doutrinários. É incoerente.

2. Enruga as almas dos homens. O amor humanitário de Deus que deve expandir nossas almas e fazer com que cresçamos na graça, murcha sob a geada fria do espírito partidário. Em uma comunidade um cidadão evangélico proeminente morreu, e no momento de dor, os membros da família pediram à igreja de Cristo local a permissão para conduzir o serviço funeral em seu templo. Recusaram, pois não usavam um de “nossos pregadores” e os irmãos estavam receosos de “oferecer adeus” a alguém que não tinha a sã doutrina.

Em outro lugar a cruz vermelha pediu permissão para instalar uma cozinha de emergência em um templo para as vítimas de um desastre. Foram recusados porque os irmãos não endossaram a cruz vermelha e não aceitaram ter uma cozinha no edifício da igreja. Os Metodistas ofereceram seu edifício, suas barrigas não eram partidárias.

3. Destrói o sentido apropriado dos valores espirituais. O espírito partidário, em oposição ao espírito de Cristo, exige sempre o “sacrifício em vez da misericórdia.” Em muitos lugares um homem é tolerado não obstante sua vida se for sadio no teste da seita. Em uma das facções mais intolerantes e mais amargas da nossa irmandade, um certo número de pregadores, que eram frouxos moralmente, mas tinham o “mérito caiado” porque são peritos em defender a linha partidária. Alguns são cuidadosos e escrupulosos sobre a ceia do Senhor. O pão tem que ser preparado de uma determinada maneira, ou ser partido apenas assim, e ser passado às audiências de uma determinada maneira. Mas alguns que são zelosos sobre estas coisas freqüentemente são indulgentes na profanação e em outra imoralidade. Os assassinos de Jesus não entraram no salão de julgamento “a fim de que não ficarem impuros e assim não ser impedidos de comer a páscoa”. Não tinham escrúpulos em matar o Filho de Deus, mas devem ter cuidados para não se contaminar cerimonialmente.
 
4. Produz extremos legalistas. Os membros de cada partido consideram esse partido como a igreja santa, católica, e apostólica de Deus sobre a terra. Em algumas cidades há seis “igrejas de Cristo diferentes” cada uma reivindica ser “a única igreja fiel.” Os membros de uma falam mal dos membros de outra. Se alguém se levantar sobre os seus estreitos credos não-escritos e visitar o outro para discutir com ele pontos de diferença, transforma-se em assunto de comentários e de censura. Quando Pedro foi até Jerusalém, o partido da circuncisão o criticou, “por que você foi a homens incircuncisos e comeu com eles?”. Se o apóstolo Paulo estivesse aqui hoje, não seria permitido por muito tempo permanecer em uma única facção da irmandade das “igrejas de Cristo”.  Paulo gastou sua vida em se opor à tentativa de impor qualquer coisa sobre os homens como a base da comunhão, exceto a fé no Filho de Deus, como o Messias. Estava sob o fogo constante do partido da circuncisão na igreja, cujos membros insistiram em colocar um outro fundamento. Recentemente um pregador anunciou como seu tópico do sermão, “Em qual igreja Paulo ficaria nesta cidade?”. Eu lhe disse que não faria muita diferença, porque logo o expulsariam, para onde quer que fosse. 
 
O espírito de partido nos mantém fora do céu. É uma paixão da carne. Devemos tentar superá-lo. Necessitamos de presbíteros hoje que cultive em seu rebanho uma visão aberta, de um espírito caridoso, de um amor para a humanidade caída, e de um sentido de necessidade de reforma. Devemos ser fiéis a toda revelação de Deus, recusar comprometer a verdade, e aderir à palavra de Deus como a âncora de nossa liberdade. Mas não necessitamos ser dogmáticos, arbitrários e detestáveis. Não perdemos a verdade quando fazemos uma distinção entre aqueles que desobedecem consciente e deliberadamente a Cristo, daqueles que O obedecem de acordo com o seu conhecimento atual, mesmo que seja defeituoso e imperfeito. 
 
Apenas aqui uma palavra de cuidado pode ser necessária. Devemos evitar as generalizações imprudentes. É fácil dizer que não há nenhuma desculpa para uma pessoa que não vê toda a verdade desde que tem acesso à Bíblia. Porém, é exigido mais do que a mera possessão do livro.

(Mission Messenger; Março 1958; livro: Thoughts on Fellowship (“Pensamentos sobre a Comunhão”)