O Avivamento de Cane Ridge (1801)

Barton W. StoneJusto L. Gonzalez, historiador latino, de vasta penetração na Teologia Norte Americana, autor de vários livros na área histórico – teológico muito traduzidos para a língua portuguesa, pelas edições Vida Nova - São Paulo/SP,  traz a lume o capitulo do 2° grande avivamento ocorrido nas EUA, nos idos  de 1797 a 1850, avivamento este que chamuscou o denominacionalismo  protestante, mais acadêmico do que evangélico, nascendo assim uma nova  visão do mover de DEUS, trazendo os lideres para uma volta a Bíblia e levantando duas bandeiras para o cristianismo autentico: “volta a Bíblia”  e “falar onde a Bíblia fala calar onde a Bíblia cala”. O MOVIMENTO DE RESTAURAÇÃO nasce neste avivamento e reaviva toda nação Norte – Americana, chegando atualmente a mais de 170 nações. Em seu clássico e “UMA HISTÓRIA ILUSTRADA DO CRISTIANISMO “  (10 volumes) no  volume 9 paginas 27 a 31, Gonzalez traz o relato histórico de CANE RIDGE, cujo personagem, responsável pelo  avivamento local e BARTON W. STONE, jovem pastor presbiteriano que contrariando sua denominação leva o avivamento para sua igreja rural, no KENTUCKY.

Comentário de: Pr. Ozório R. Gonçalves – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Veja e leia o texto de Gonzalez:

O Segundo Grande Avivamento
No fim do século XVIII começou na Nova Inglaterra um Segundo Grande Avivamento, semelhante ao primeiro, do qual tratamos nas ultimas paginas do volume anterior. Contrariamente ao que se poderia pensar, este avivamento não se caracterizou por grandes explosões emotivas, mas o que sucedia era que, de modo inusitado, as pessoas começavam a encarar a sua fé com maior seriedade, reformando os seus costumes para se ajustar melhor às exigências dessa fé. A assistência aos cultos aumentou notavelmente, e eram numerosas as pessoas que contavam experiências de conversão. A principio, este avivamento também não teve os matizes anti intelectuais que caracterizaram outros avivamentos. Pelo contrario, ele abriu caminho entre muitos dos maios notáveis Teólogos da Nova Inglaterra, e logo um de seus principais pregadores se tornou o presidente da Universidade de Yale, Timothy Dwight, neto de Jonathan Edwards. Nessa universidade, e em muitos outros centros decentes, notou – se um grande despertamento religioso, que encontrava eco no resto da comunidade.

Como resultado daquela primeira fase do avivamento fundou-se dezenas de sociedades com o propósito de difundir a mensagem do evangelho. Dentre Elas, as mais importantes foram a Sociedade Bíblica Americana, fundada em 1816, e a Junta Americana de Comissionados para missoes Estrangeiras, fundada  seis anos antes. Esta ultima foi o resultado de um compromisso mútuo que um grupo de estudantes havia feito alguns anos antes, quando, reunidos sobre um monte de feno, havia decidido se dedicar às missões estrangeiras. Quando um dos missionários enviados por essa organização, Adoniram Judson, se tornou batista, os batistas norte americanos sentiram-se chamados a deixar um pouco de lado o seu congregacionalismo e  organizar uma convenção geral cujo propósito original era apoiar missionários batistas em outras partes do mundo.

Outras sociedades surgidas como resultados daquele avivamento se dedicaram a diversas causas sociais, tais como a abolição da escravatura (a Sociedade Colonizadora, de que trataremos mais adiante) e a guerra contra o álcool (a Sociedade Americana para a Promoção da Temperança, fundada em 1826). As mulheres foram ocupando uma posição cada vez mais destacada nesta ultima causa. Na segunda metade do século, sob a direção de Frances Willard, a União Feminina Cristã pró-Temperança tornou-se um instrumento na luta pelos direitos femininos. Em grande medida, portanto, o feminismo norte-americano tem suas origens no Segundo Grande Avivamento.

Entretanto, o avivamento havia rompido as barreiras da Nova Inglaterra e das classes mais educadas, começando a abrir caminho entre as pessoas menos instruídas, muitas das quais se dirigiam para os novos territórios do oeste. (É bom recordar que, segundo o Tratado de Paris, os Estados Unidos tinham o direito de  colonizar todas as terras entre os Apalaches e o Mississipi.) Muitas  das pessoas que se dirigiam para o oeste levavam consigo a fé vibrante que as primeiras fases do avivamento haviam despertado, e em seus novos lugares de residência procuraram manter viva essa chama. Embora ali a situação fosse diferente, logo o despertamento religioso assumiu um tom mais popular, mais emotivo, e menos intelectual, até o ponto em que, mais tarde, se tornou anti intelectual.

Talvez o passo mais notável dessa transformação tenha sido o avivamento de CANE RIDGE, no estado de Kentucky, organizado – na medida em que foi – pelo pastor presbiteriano da igreja local. Com o fim de despertar a fé dos habitantes da comarca, aquele pastor BARTON W. STONE anunciou uma grande assembléia de avivamento, ou “reunião de acampamento”. Ao chegar o dia marcado, dezenas de milhares de pessoas se congregaram. Em uma região em que eram poucas as oportunidades para reunir se e festejar, o anuncio de BARTON W. STONE atraiu toda classe de pessoas. Muitos foram por motivos religiosos, outros foram para passear e se divertir. Possivelmente muitos nem sabiam ao certo por que estavam indo. Alem de Stone pastor presbiteriano do lugar, havia outros pregadores batistas e metodistas. Enquanto uns divertiam, os pastores pregavam. Um inimigo do movimento chegou a dizer que em CANE RIDGE se conceberam mais almas do que as que se salvaram. Inesperadamente, começaram a ocorrer inauditas expressões de emoção, pois uns choravam, outros riam, outros tremiam, alguns saiam correndo, e não faltavam pessoas que latiam...

Aquela reunião perdurou por uma semana, e ao sair dali muitos estavam convencidos de que aquela era a verdadeira forma de dar a conhecer a mensagem do Senhor. A partir de então, nos Estados Unidos, quando se falou em “evangelização” ou em “avivamento”, pensava – se em termos parecidos com os de CANE RIDGE. Logo em muitos círculos começaram o costume de se organizar um “avivamento” todos os anos.

Embora a reunião de CANE RIDGE tivesse sido organizada por um pastor presbiteriano, essa denominação não via com bons olhos as manifestações de emoção desenfreada que estavam acontecendo. Logo se tomaram medidas disciplinares contra os pastores que participavam de cultos no estilo de CANE RIDGE, e a igreja presbiteriana, por isso, não teve nos novos territórios o impacto que tiveram os batistas e os metodistas. Estas duas denominações tiveram a idéia de celebrar “reuniões de acampamento” e, embora poucas tenham chegado aos extremos de CANE RIDGE, esse foi o seu principal método de trabalho nos territórios. Em lugares que, como dissemos, as pessoas não tinham ocasião de se reunirem em grandes multidões, o “avivamento” periódico preenchia uma grande necessidade, não  só religiosa, mas também social.

Outra das razões do crescimento do Movimento de Restauração foi que o movimento demonstrou disposto a apresentar a sua mensagem da forma mais simples possível, e a utilizar para isso pregadores de escassa preparação. Enquanto as outras denominações careciam de pessoal, porque não havia onde nem como ministrar instrução a candidatos, os metodistas e batistas estavam dispostos a utilizar a quem se sentisse chamado pelo Senhor. A vanguarda dos metodistas eram os pregadores leigos, a quem se permitia, embora não recebessem ordenação. Alguns deles tinham vários lugares de pregação, no que se chamava um “circuito”. Os escassos pastores ordenados, que em sua maioria tinham mais instrução, nunca haviam sido capazes de alcançar o numero de pessoas que os pregadores leigos influenciavam com suas mensagens simples, no idioma do povo. Tudo isto, todavia, se encontrava sob o governo rígido da “conexão” e de seus bispos. Os batistas, por seu lado utilizavam, sobretudo, agricultores que viviam do seu trabalho e serviam de pastores na igreja local. Era essa igreja que os ordenava e lhes dava autorização para pregar. Quando se abria algum território novo, nunca faltava entre os novos colonos algum batista disposto a tomar sobre si as responsabilidades do ministério da pregação. Assim, por métodos diversos, os batistas conseguiram arraigar se nos novos territórios e, em meados do século eram as principais denominações protestantes do país.

Cane Ridge

Uma conseqüência importante desse Segundo Grande Avivamento, a que a história da igreja se refere, foi que ele contribuiu para romper as barreiras da origem étnica. Entre os novos batistas e metodistas havia ex–luteranos alemães, ex–presbiterianos e escoceses e ex–católicos irlandeses. Portanto, embora ainda em termos gerais, tenha continuado a ser verdade que as divisões denominacionais coincidiram com a origem de diversos grupos de imigrantes, essa coincidência tornou se menor.

Justo L. GonzálesJusto L. Gonzáles é bacharel em teologia pelo seminário evangélico de Matanzas, em Cuba e doutor em filosofia pela universidade de Yale nos Estados Unidos. É casado com a professora de história Catherine Gonsalus .
Gonzáles e mora em Atlanta, Geórgia Estados Unidos, onde se dedica ao ensino, pesquisa e produção de livros.