David Sanders, uma história...

I – Na Infância a Chamada Eficaz

Nasci em 1918, no dia 28 de fevereiro, na casa de meus pais, de onde não foi possível sair, pois no lugar onde moravam houve uma grande tempestade de neve. Meu pai tinha planejado mudar-se daquela fazenda naquele ano, porque era longe uns dez quilômetros da cidade mais próxima.

Nasci num tempo muito frio; mas, graças a Deus, não me lembro de nada congelando. No ano seguinte, mudamos para outra fazenda, a cinco quilômetros de uma empresa aonde íamos, muitas vezes, num trenó puxado por cavalos sobre a neve. Desses poucos dias, lembro-me que, depois, carros passavam por lá mais rapidamente.

Foi quando ocorreu, ali, uma campanha de evangelismo. Meus pais, que sempre assistiam à Igreja, naquela época, parece-me que tinham-se afastado um pouco, e na campanha houve uma renovação de suas vidas. Aceitaram a Jesus, e renovaram a aliança com Deus.

Enquanto os outros aceitavam a Jesus, eu, então com doze anos de idade (1930), fiz minha decisão. Nessa época, achei bom dar crédito a meus professores de Escola Bíblica Dominical que, ensinando-me bem a Bíblia, deixaram gravada em minha mente a necessidade de aceitar a Jesus como Salvador. Portanto, aceitei.

Mas, no fim da campanha, uma ou duas semanas depois, houve uma pregação especificamente dedicada para uma consagração especial, aos que quisessem entregar suas vidas para servir a Deus como Missionários. E só sei que, sem perceber, lá estava eu com aquele grupo na frente da Igreja, fazendo uma oração de dedicação, era o último domingo, o fim da campanha de uma igreja do campo. Meus pais, meus irmãos mais velhos e parentes ali, assistindo. Eu não fazia ideia de como poderia ser missionário, mas ficou gravado em minha mente que tinha o compromisso de ser missionário.


II – A Juventude

Com meus quinze anos, na Escola, parece-me que fui testado, por mim mesmo ou por Deus. Tive uma experiência que me levou a preparar-me melhor. Foi com meu professor de teatro (ou dramatização). Era um tipo de poesia que pude declamar, e fiquei em segundo lugar. “Bem”, eu pensei, “Deus me deu uma boa voz, não é para seguir carreira...”. Veio a tentação de ficar orgulhoso.

No ano seguinte, estava tentado: “Se eu ganhar o primeiro lugar, é certo que vou continuar, não é?!” Mas, não ganhei. Acho que fiquei em quarto lugar naquele ano.

“Então, talvez Deus não queira isto pra mim, já que não fui bom o bastante”, pensei.

Mas, passaram-se os anos, e quem sabe eu tenha afastado um pouco a ideia de ser missionário... E preparava-me para ir para uma Faculdade Agrícola perto de nossa casa. Nessa época, já tínhamos mudado de fazenda. Eu, com pouco mais de idade, continuava indo a diferentes igrejas, trabalhando muito com os jovens e sentindo de servir a Deus onde estava.

Naquele ano, preparando-me para a Faculdade, tive uma experiência, não sei se dolorosa, de jovem, de tristeza, de incapacidade de servir. Uma espécie de incredulidade sobre se Deus queria que eu fizesse aquele trabalho.

Depois desta experiência de tristeza, fui para o meu quarto e estive orando a Deus. Oferecendo, fazendo confidências a Ele, senti... A única alegria que podia ter.

Olhando para trás, estranhei que já tivesse essas emoções que eram tão interiores – não é?! –, de servir a Deus. E orei em meu quarto; de novo, ofereci-lhe a minha vida ao trabalho missionário. Orei para a renovação da fé, no sentido de que voltasse a minha vida novamente ao trabalho.

Talvez, aquela tristeza que deu em minha vida, foi porque, então, em lugar de ir estudar agricultura, eu fora estudar outra coisa... Fui procurar o pastor da Igreja e perguntei-lhe o que eu deveria ou poderia fazer. Ele falou sobre eu ir estudar numa faculdade cristã, teológica, que havia a uma pequena distância da Igreja. Mas, recomendou uma outra, mais distante. Parece-me que em razão de que, lá, a pessoa podia estudar e pagar as despesas trabalhando em alguma coisa.


III – As Abelhas Terapêuticas

Mas, falando dessas experiências de jovem – voltando bem atrás no tempo –, eu tinha umas caixas de abelhas e as colmeias davam uma boa renda.

Cuidava delas e de um pequeno pomar aonde iam-se alimentar para produzir o mel. E, um dia, uma colmeia saiu de uma caixa, isto é, a rainha saiu e as abelhas atrás dela. E, por alguma razão, pararam em uma árvore... Alguém me aviou que elas estavam lá.

Quando elas saem, e nós vemos, é só fazer barulho com palmas e panelas que elas vêm parando; mas, este dia, elas pararam sem qualquer barulho naquela árvore...

Então, preparei-me com um véu e fumaça, e fui diretamente pensando em como pegá-las, bem no alto da macieira. Encostei a escada, peguei um balde e subi. Difícil subir com essas coisas nas mãos, tendo a escada livre para balançar a árvore! Cheguei lá, bem alto, com muito vento; dei uma sacudidela naquela árvore coberta de grande quantidade de abelhas para que caíssem no balde, para que eu levasse. Porque enquanto a rainha estivesse lá, elas eram atraídas.

 

Mas, logo antes de eu poder descer, elas começaram a me picar, ao redor do pescoço e da camisa... Iche!... O que é que eu podia fazer? Deixar tudo cair no chão e correr? Pensei comigo... Espalhei a fumaça ao redor da cabeça; deixei o balde que fazia a fumaça cair; fiquei com o balde das abelhas... Desci da escada, fui abrir a tampa, e joguei-as lá dentro com a rainha.

Todas entraram, menos aquelas que estavam no meu pescoço, não é?! –, mas, quando a rainha caiu lá, elas seguiram, todas as que sobravam. Meu pescoço estava como que queimando...

Voltei para casa, e entrei em um tanque, que enchi de água fria, pois estava sozinho... Meus pais tinham saído, nem pude esquentar a água.
Mas, eu sofria muito com artrite na minha perna, e fui curado pelas abelhas.


IV – Os Preparativos para o Seminário

Como dissera antes, por fim, o pastor recomendou-me para ir estudar em um lugar que era, também, aberto para missões. Ele conhecia alguém que tinha-se formado lá, naquele ano, e pastoreava uma pequena igreja, a 25 quilômetros de distância, além de outras comunidades espalhadas pelas fazendas. Fui, conversei com ele, e conhecia outro rapaz que estava indo de carro para lá aquele ano, também para estudar.

Meus pais apoiavam a ideia de eu ir estudar para ser missionário, mas não tinha muito dinheiro para pagar as despesas. Eu tinha um pouco, das coisas que possuía e vendi. Paguei a passagem, o primeiro semestre, e fui.

E viajamos mil quilômetros de distância, num carro bem velho, passando por muitas montanhas. Eu nunca havia saído de casa, em minha vida, a mais de 50 quilômetros de distância. Eu tinha vinte e um anos. Antes dessa idade, receava sair de casa, porque trabalhava com meu pai. Ele queria que eu continuasse ali, e não sentia vontade de ir contra a vontade dele.

Meu pai não estava muito interessado em que eu fosse pastor ou missionário. E não havia, vamos dizer, alguém que me encorajasse muito...

Sozinho, tudo isso passava pela minha mente. Não eram muitos, entre os jovens, as pessoas, com vocação para pastor ou missionário.

Então, naquele ano de 1939, eu entrei na Faculdade (Johnson Bible College) e comecei os estudos.


V – O Primeiro Ano de Seminário

Na Faculdade, aprendi muitas novidades, frutos da vida, muitas experiências... Talvez, a mais importante: uma decisão mais direta de ser missionário. Tinha aquela chamada, mas em que poderia servir; não é?!O primeiro ano passou com novas experiências: vida cristã e ensino da Bíblia.

Lembro-me de um professor vindo da África do Sul, onde pastoreava uma grande igreja antes de vir para América do Norte participar de campanhas, e hospedavam-se na Faculdade. O Senhor Vasco Holt era homem forte, grande em estatura e capacidade de interpretar as Escrituras, e fora exercer a fé em obediência a Deus. Era professor de Doutrina Cristã, em geral, e aprendi muito dos autores que ele citou. Principalmente sobre a fé, fortalecendo muito a minha fé.

Neste ano, trabalhei na cozinha. Havia outros tipos de trabalho lá; não me lembro exatamente por quais passei. Mas, não sei por que, eu estava sempre na cozinha. Meu trabalho era só enxugar panelas, três vezes por dia, e eram bastante, pois havia cento e quarenta alunos comendo e usando muitas panelas. Mas, no segundo ano, fui promovido. Passei a enxugar somente pratos.


VI – Uma Grande Descoberta

Aconteceu um incidente que gostaria de contar, que acho interessante...

No meu primeiro ano, eu via os alunos do quarto ano com admiração, e peguei amizade com alguns deles. Porque lá estavam aqueles que tinham o tipo para pastores, já preparados. Mas, com alguns, de mais idade também, e especialmente um, não sei por que, peguei mais amizade. Assim ele passou a ser um conselheiro para mim.

Eu estava achando difícil aquele primeiro ano da Faculdade, e não sei por que as pessoas ficam tristes quando não tem razões para ficar, não sei, mas a pessoa fica triste... E numa noite eu fui lá onde ele dormia para orar comigo e dar-me sugestões, trocar ideias.

Batendo na porta, descobri que ele estava no quarto de outra pessoa. Bati na porta desta, alguém abriu um pouquinho, estava escuro lá, e eu falei que queria falar com Kérmit, este irmão pastor, irmão mais velho, e eles me convidaram a entrar. Descobri que estava ali o grupo do quarto ano orando. Então, pensei: “Que maravilhoso, não é?! Que coisa! Homens dedicados a orar...”.

Assim, estive nas orações desse grupo e, depois, conversando com eles. Mas, aquela oração fora uma benção em minha vida, por sentir toda aquela dedicação à oração. Porque pareceu que, nos dias de aprendizagem e ignorância, estas coisas são uma bênção, não é?!


VII – As Férias

Nesse primeiro fim de ano, fui para casa, de férias... Lá, visitei as igrejas do nosso município, já era conhecido delas, pois ainda jovem me associara nas convenções, antes de ir para a Faculdade. E tive seis congregações que se reuniram para conferências. Era, também, uma espécie de meus patrocinadores, ainda que não direta, mas indiretamente.

Então, fui visitando as igrejas e oferecendo-me para pregar em cada uma delas. Foi o que fiz naquelas férias, visitar e pregar nas igrejas.

Quando terminei o segundo ano, fui visitar uma das igrejas que não tinha pastor; ofereci-me para pastoreá-la durante as férias, e o fiz. Aí, descobri uma outra, a poucos quilômetros de distância, também sem pastor. Eram dois vilarejos, uns vinte quilômetros um do outro, e pastoreei essas duas igrejas.

Em uma, ia cedo para a Escola Dominical. À noite, eu me dirigia a outra.

Assim, passava as férias. E, também, trabalhando nas fazendas de meus irmãos, para ganhar mais dinheiro. Ganhava mais dinheiro trabalhando do que pregando; quando pregava ganhava pouco...

Enfim, voltei para a Faculdade com dinheiro para pagar novo semestre, mas só a metade; a outra eu consegui trabalhando, mas só quinze horas por semana.


 

Então, eu marquei por volta das quatro horas, mais dez minutos para orar. E, ali, novamente, cheguei a muita convicção de continuar o meu ideal, de ser missionário. Esta conclusão cheguei orando, a sós...


IX – O Acidente

No terceiro ano de estudo, antes de voltar para casa, foi o começo da Segunda Guerra Mundial, em 1939. Então, passei (parece-me) dois anos na fazenda de meu pai antes de voltar para a Faculdade.

Foi quando um homem me disse que havia uma obra lá, na cidade dele. Estavam construindo um depósito para exercício e precisavam de trabalhadores. E pensei: Devem pagar bem – não é?! – um trabalho desses, e fui trabalhar.

E tive uma experiência bastante triste!

Estava lá, já, mais ou menos um mês – não lembro bem! Numa manhã cedo, eu estava no fundo da camionete, e saímos de uma obra para outra. No cruzamento, um caminhão lotado de pedras bateu no nosso, e jogou-nos abaixo... Isto é o que contaram para mim, porque eu não me lembrava de nada: acordei num hospital, e não sabia quem eu era.

Estive lá alguns dias, e minha irmã foi me visitar... Eu não a reconheci. Ela ficou chocada. Depois – parece-me – eu reconheci, e aceitei que ela era minha irmã.

Mas – graças a Deus! – houve mensageiros para avisar e pedir orações. Muitos amigos, nas casas e nas igrejas, especialmente as seis congregações que eu considerava como minha igreja, e a Faculdade, onde tinha os irmãos e todo mundo que ouvira falar do meu acidente.

Na cidade, onde já assistira, numa igreja grande, uma espécie de “Tabernáculo da Fé”, o homem que lá me hospedara avisou-os para orar. E recebi cartões de todo mundo, de um monte de pessoas que dizia estar orando por mim.

Por fim, saí do hospital, quase incapacitado para voltar à escola naquele ano. Mas, ainda tinha um mês de férias que passei em casa, em recuperação.


X – A Volta ao Seminário

Naquele ano, voltei à Faculdade muito fraco. E pedi um trabalho em que pudesse fazer mais exercícios ao invés de ficar nos pratos e panelas. Entretanto, naqueles anos, eu aprendera a fazer molho de carne, tipo hambúrguer. Todo dia, levantava às quatro horas, e o fazia, todas as manhãs... E gostava muito! Era em um estado do Sul onde se come bastante biscoitos e pães na hora do café, e ali aprendi e era eu quem fazia o “molho” de todos os dias. Este era o meu trabalho e aquele o “meu molho” de que todos gostavam muito.

Então, quando voltei, pedi o trabalho de carteiro. Tínhamos que andar mais de dois quilômetros para carregar a correspondência; ir busca-las de manhã e levar ao meio-dia. Mas, podia andar uns oito quilômetros por dia, sem problemas, porque eu achava que ia me fortalecer, pois estava ainda fraquíssimo do acidente.

Eu ganhara este direito de estar no trabalho considerado mais luxuoso... Andando no ar frio; às vezes, carregando dois sacos nos ombros, trazendo correspondências, distribuindo nos dormitórios e para os professores que moravam no campus.

Assim, terminei o quarto ano.


XI – A Gestação da Visão

Durante estes anos houve também muitos encontros com missionários de vários países do mundo. Passaram por lá missionários que estiveram no Japão, e um, que achei um grande desafio, que trabalhara no Tibete e, depois, ficara prisioneiro – parece-me – dos filipinos quase dois anos, durante aquela guerra mundial e ele, por alguma razão, fora transferido para Filipinas.

Havia outro que passara pela China, com alguns de seus Filhos, além de outros, da Índia, África e mais lugares que não estou lembrando. Todos estes homens deixaram suas impressões em minha vida para ser missionário. A cada um deles Deus havia chamado.

À noite, nós tínhamos um culto para todos os alunos, quando recebíamos muitas mensagens também desafiadoras. E esses missionários iam orientando e saindo, deixando as suas mensagens, enquanto outros pregadores e evangelistas de todo o país vinham visitando e pregando.

Isto foi grande coisa para mim.

Tínhamos orações todas as noites, uma oração breve de meia hora. Tudo ia deixando uma impressão em mim, para cumprir meu compromisso.

De todos os que chegaram de outros países, não houve ninguém do Brasil. Então, durante o último ano, parece que o Brasil foi gerado em minha mente, como toda a América Latina, talvez por continuar sendo ainda católica...

Eu ouvia dizer que aqui pediam missionários, que mandassem livros, publicações:

- Que mandem seus obreiros! Tragam Cristo para nós!

Palavras que – pareciam-me – significavam que a maioria conhecia Cristo, mas, de fato, não conheciam a Cristo, não é?! Não tinham uma experiência com Cristo. E isto também se gerou em minha mente.


XII – O Brasil

Durante o período, eu li na história de um homem, em um livro bem fininho, sobre sua ida para o interior do Brasil, para o Oeste. Porque o Brasil central, o interior, preparava-se para receber os imigrantes. E, na época, isso ficou gravado em minha mente.

O único livro que pude ler sobre o Brasil em nossa biblioteca local era um sobre flora, as árvores e o campo verde do Brasil, a Amazônia.


XIII – A Arrancada Missionária

Finalmente, chegando o tempo de formatura e de sair da Faculdade, o grupo de formatura da nossa sala estava, cada um, decidi para onde iria; outros tinham, até mesmo, lugar preparado para ir.

Eu não tinha. Mas me concentrava em algum lugar fora... E acontecia de não ter nenhuma ideia de como poderia ir...

Por fim, falando com vários irmãos, professores e pessoas sobre como poderia ir – porque eu não era de muita conversa, não perguntara àqueles missionários como eles haviam conseguido – fui informado sobre uma sociedade de missões que poderia me enviar.

A sociedade não era muito ligada à Faculdade, esta era mais voltada para as missões diretas. E, por causa de suas ideias, dessa doutrina, achava que algumas missões estavam enviando missionários que não fossem fieis. Havia, então, a barreira.

Ao falar com eles, eu ainda não sabia como poderia ir...

Assim, depois de pensar e conversar com um professor no último dia da nossa reunião do grupo de formados, eu tinha orado bastante e concluído que deveria ir para o Brasil. E apresentei isto a eles: Que nós, como irmãos, como um grupo, poderíamos enviar um missionário para o Brasil, porque era preciso mandar um missionário para lá.

Eu não conhecia quase nada do Brasil, mas, por causa do chamado, achava bom, não é?! Então, disse isto para o grupo da sala de aula, uns dezoito alunos, que precisávamos enviar missionários. E estava pronto a ajudar qualquer pessoa que quisesse ir. Eu ajudaria. Mas, se não havia nenhum voluntário, eu seria o voluntário. “Se vocês quiserem me enviar, eu serei o voluntário”, disse-lhes.

Acabaram aprovando-me, e comprometeram-se, cada um deles, em me ajudar. Ninguém sabia como, mas prometeram uma ajuda de dez dólares, cada um... O que chegava a um total de cento e cinquenta por mês.

Então, antes de nos separarmos, escolheram um secretário e um tesoureiro para receber o dinheiro e depositá-lo para minha ida para o Brasil.

Para melhor me preparar – e, parece-me, também, que senti naquela época a necessidade de estuar mais – resolvi passar por uma universidade, preparando-me para ir ao campo.

Passei dois anos estudando o mestrado em artes e estudos bíblicos, junto com alguns cursos seculares, como o espanhol, que talvez me ajudasse no português, e outros que achava práticos.


XIV – Estranhos Acontecimentos

Mas, aconteceu uma coisa estranha quando cheguei nessa nova cidade para estudar. Trabalhei um ano em uma igreja e, no segundo ano, recebi o convite de mudar para outra igreja que pagava melhor. Eu estava trabalhando em um posto de gasolina para pagar as despesas, não queria usar os fundos que poupava para a ida ao campo.E aconteceram coisas nesta cidade...

Eu era solteiro, porque na outra faculdade só tinha homens estudando, não havia candidatas disponíveis, só uma moça, filha de um dos trabalhadores de lá... E não era bastante para todos, não é?!

A esposa do reitor fez uma festa para os alunos da universidade, e convidou as alunas de uma escola de enfermagem de lá, quer dizer, as futuras enfermeiras todas para esta festa, para que se encontrassem com os alunos. Ali poderia ter surgido alguma oportunidade, com muitos candidatos e candidatas, tanto que vários alunos se casaram com aquelas moças.

Mas, na cidade, tinha um grupo dedicado a missões, e uma senhora missionária que estava lá era secretária do trabalho de missões do estado. Ela convidou todos os alunos interessados a irem a sua casa para uma reunião de estudo de missões, que era também um tipo de festa. Assim, formamos um clube de missões da universidade Phillps.

Entretanto, Dona Ruth estava nesta universidade. Encontrei-a naquelas reuniões para os candidatos a missionário. Ela era, então, candidata para a África. Conversamos, e eu falei da minha ideia de ir para o Brasil. Disse-lhe da possibilidade de vir comigo e trabalhar aqui, não é?!

Depois de bastante oração, estava, em seu coração, comprometida, em certo sentido, mas não com muita convicção do que era.

Por fim, casamo-nos, e mudamos para este lugar onde eu já estava preparando e morando, e fomos habitar lá. Nos fins de semana, eu tinha o apartamento na cidade, onde estuda na universidade.

Ruth nascera naquela mesma universidade, quando o pai esteve estudando lá. Mas, depois, ela tinha ido com o pai para outros estados e várias cidades onde ele pregava. Ruth tinha dois irmãos estudando na Universidade ao mesmo tempo que eu.


XV – Deus Prepara o Caminho

Assim, continuei o estudo de missões. Mas, coisa bem interessante, como Deus tinha preparado o caminho para mim naquela cidade ou vila, não sem, de cinco mil habitantes... Disseram-me que havia um jovem casal das Assembleias de Deus, não muito longe da nossa congregação, chegados recentemente, e que eram filhos de missionários no Brasil.

Então, eu os visitei. Eram filhos de missionários da Igreja de Cristo não instrumental que tinha vindo para o Brasil em 1938, e estavam aqui há muitos anos. Criaram a família no Brasil, mas depois foram convocados a voltar aos Estados Unidos, por causa de alguns convertidos que estavam-se desviando, dizendo ter novas experiências, que estavam sendo batizados com Espírito Santo, começavam a falar em línguas estranhas e enfatizavam mais – demais, vamos dizer – os dons do Espírito Santo.

Eu não sei toda a história, até não indaguei, contudo, eles eram crentes. Um deles é Virgílio Smith; o outro, o Orlando Boyer; e um que se chamava Johnson. Esses três ficaram no Brasil.*

Orlando Boyer teve alguns filhos; entre eles, a filha que voltou para os EUA; e o seu marido era o pastor que estava lá próximo onde eu pregava.

Então, fui visitar aquele casal, e perguntei-lhe a respeito do Brasil, de como eu poderia chegar lá, alguma coisa sobre o país. Ele deu-me dados e o endereço de seu pai, que ainda estava aqui.

Escrevi-lhe uma carta perguntando o que era conveniente trazer – se é que era para trazer alguma coisa; as pessoas não fazem muita ideia do que outro país tem, não é?! – Do que era preciso comprar, e ele deu-me a ideia de comprar as coisas que eu gostasse mesmo na América do Norte.

Então, estudei dois anos para Mestre de Artes, mais dois anos de mestrado em Divindade, quatro anos ao todo.

*Virgílio Smith, conhecido e pioneiro missionário, hoje membro da Igreja de Cristo em Brasília. Orlando Boyer, renomado escritor evangélico com vários livros editados pela Casa Publicadora da Assembleia de Deus. (Nota do entrevistador).


XVI – O Caso do Visto para o Passaporte

Neste intervalo, nós procuramos o visto para o Brasil, porque já estava decidido e já tínhamos o dinheiro da passagem com aquele “tesouro” antes citado.

Queríamos vir, mas não estávamos conseguindo o tipo de visto no passaporte que eu queria, de entrada como missionário. Fiz a declaração; fui à cidade de Chicago onde havia o consulado brasileiro, e disseram que não me podiam dar a permissão para entrar no país.

Continuei requerendo, mandei para Washington D.C., onde também não puderam dar a permissão. Fui para o sul do país; fiz o mesmo requerimento e, nada, novamente.

Mas parece que Deus me deu – ou Ele estava trabalhando enquanto eu não sabia – pois recebi um convite para a Califórnia, que, na época, começava a ter convenções missionárias e a juntar pessoas para enviar missionários, preparando mais as Igrejas para Missões.

Nos anos de 1945 a 48, eu ia visitando as igrejas e, falando com elas, via que muitas não tinham missionários trabalhando, e nem ideia de como poderiam ajudar... Mas, graças a Deus, que muitas igrejas quiseram ajudar.

Então, fui a esta conferência missionária na Califórnia para dar uma mensagem. E, lá, pensei: Por que não fazer um requerimento para o consulado brasileiro? E levei todos os documentos que também levava aos outros...

A primeira coisa que fiz quando cheguei lá, na segunda-feira: ir ao consulado brasileiro de Los Angeles com pedido de entrada e permanência, do tipo que permite trabalhar. Deixei os documentos, e disseram que eu voltasse sexta-feira.

Neste intervalo, parece-me que faltava um documento provando o meu sustento, e mandaram-me uma declaração, uma garantia do banco de que eu tinha o dinheiro, e era um simples pastor. E, voltando ao consulado, já estavam lá os vistos prontos para mim e Dona Ruth.


XVII – A Partida dos EUA e Chegada ao Brasil

Quando já formado, os estudos terminados, além de tentar os vistos, durante um ano, passei visitando as igrejas para angariar fundos para viagem. Assim foi a preparação.

Procuramos primeiro um navio, mas não houve facilidades para fazer as reservas com antecedência. Finalmente, consegui, em fevereiro ou março de 1948, de avião, e viajamos para o Brasil. Ajuntamos o que tínhamos; alguma coisa, a igreja mandaria por navio, quando pudesse. E chegamos ao Rio de Janeiro.

Eu avisara a Orlando Boyer. Não pedira que fosse-me encontrar, só o avisei que estaria chegando. Tinha reserva em um hotel. Cheguei e não achei a reserva, mas Orlando Boyer estava lá me esperando.

Fiquei surpreso ao ouvir meu nome no alto-falante, não sabia que ele viria me buscar no aeroporto.

Mas nós descemos lá, naquela ilha* do Rio de Janeiro, época em que não havia ponte, e entramos num pequeno barco. Chovia e ventava, parecia que estávamos muito sozinhos, ali, no barco...

Chegamos às onze horas da noite, porque o voo se atrasara.

Orlando Boyer e Olson, levaram-nos para a casa deles, para ficarmos aquela noite e, no outro dia, procurar um quarto. E alugamos um na Tijuca. Era uma espécie de pensão familiar, todos almoçavam juntos, numa grande mesa, como num lar e lá sentamos para o nosso primeiro almoço. Sem saber falar português.

*Ilha do atual Aeroporto Internacional do Galeão, na época sem a ponte.


XVIII – A Perda do Primeiro Filho

Na América do Norte, antes de vir para o Brasil, tínhamos perdido nosso primeiro filho. Naquela ocasião, doente, Dona Ruth passou bastante tempo no hospital. O filho nasceu e, em três dias, morreu, e quase a perdemos também.

Por isso, todo mundo recomendava que Ruth não viajasse. Mas, graças a Deus, ela teve uma fé forte para vencer a doença e recuperar-se. Isso atrasou os nossos planos, mas o enfrentamos, e até chegamos ao Brasil.


XIX – Por que o Brasil Central

Quando estive na Faculdade Johnson, tinha lá, numa grande parede, um lugar de passagem subindo a escada para a sala de aula, um grande mapa do mundo: E lá estava o Brasil. Também ali, marcadas, as capitais federais de todos os países. E, no centro do Brasil, estava marcado: “Futura Capital Federal”*.

Aquilo, como disse Machado de Assis: “Fixou em minha mente, uma ideia fixa” – isso de eu vir para o Brasil Central. Além de que, deve ser – eu pensava – o lugar onde vai ficar muita gente, futuramente, não é?! – a Capital Federal, e dali seria possível influenciar o país todo, por começar do centro.

Então lá, e com esta ideia em mente, de vir para o Brasil Central, e como ainda não existia, na época, a Capital Federal, vim para Goiânia, capital de Goiás. Ainda pequena e nova, de treze anos, se não me engano.

Ficamos três meses no Rio para esperar a bagagem, que aproveitamos para estudar e conversar com o pessoal. Na pensão, havia um jovem que falava inglês. Conversávamos com ele sobre a nossa vinda pra cá, e estranhou, perguntando por que eu queria ir para o Brasil Central, se tinha tantas pessoas no Rio de Janeiro, que lá em Goiás só tinha índios...

Difícil de explicar uma visão – não é?! – mas falei-lhe que eu tinha que vir pra cá.

*Grande probabilidade de tratar-se de uma visão, já que bem improvável naquela época tal marcação no mapa.


XX – A Primeira Pregação no Brasil

Um dia, então, peguei um avião. Não sem antes conversar com Johnson, que morava em Varginha, Minas Gerais. Perguntara sobre como ir para Goiás, e me disseram que tinha um trem lá no Rio, em que iria para Varginha e de lá para Anápolis, em Goiás, onde pegaria uma carroça para Goiânia. Ainda não havia trem na cidade.

Então fui para Varginha de trem, com Johnson, e fiquei na casa dele, que tinha um filho de dezenove anos.

Ele e o pai me levaram naquela primeira noite para uma pregação na rua, e tive minha primeira pregação no Brasil. Quer dizer, eu já dera testemunho no Rio, na Assembleia de Deus, mas não preguei – foi um testemunho de dois ou três minutos.

Lá em Varginha, eu preguei mesmo, o jovem Johnson foi meu intérprete; houve três decisões, e eu pensei: Bom, muito bem, eu estou animado demais para pregar.
Mas, no dia seguinte, comprei uma passagem para Belo Horizonte. Johnson deu-me uma carta para um pastor que, não sei como, me encontrei com ele, e orientou-me para entrar num trem para Goiás.

Lá, em Belo Horizonte, também dei uma mensagem. Na verdade não foi “A Mensagem”... Com alguns meses de Brasil não dava para pregar muito, não é?!
Ele – o pastor – pedira-me para falar abertamente sobre a unidade e a comunhão; li um salmo duas vezes, sobre isto, repeti umas poucas palavras e sentei-me. Porque nunca fui um homem de falar muitas palavras...


XXI – A Entrada em Goiás

Desta vez, eu estava sozinho.

Ajudaram-me com uma passagem – acho que para Catalão. O trem entrava no estado de Goiás, mas não o atravessava. Eu teria que descer lá e trocar de trem; parece que o trilho era diferente, na época tinha que trocar. Ali, tive a primeira experiência de, sozinho, comprar uma passagem para Anápolis...

XXII – A Espada de Deus e a Faca do Homem

Nessa viagem aconteceram duas coisas realmente interessantes. Havia um homem, um jovem soldado; estivemos sentados na mesma mesa do vagão do trem. Não sei como foi a nossa conversa, só que tirei um Novo Testamento do bolso e, conversando com ele, disse-lhe:

- Esta é a minha Espada!*

Ele puxou a faca dele diante de mim... Fiquei assustado. Por que estaria me ameaçando, ou o quê?

Aí conversei com ele sobre o Evangelho, e nem me lembro como a conversa acabou.

* “... É a espada do Espírito, que é a palavra de Deus”. Epístola de Paulo aos Efésios, cap. 6:17.


XXIII – O Delegado

E conversei com outro homem. Conversando mal – o que é pior, não?! – eu pensei: Talvez ele não saiba exatamente o que eu esteja falando. Mas, graças a Deus, nada aconteceu.

Chegando em Goiás, conversei com um que tinha um pano embrulhando o braço, e falei sobre o Evangelho. Ele disse-me que estava no trabalho de delegado, indo buscar alguns cavalos roubados. Estava voltando para casa. Então chegamos a Anápolis juntos.

O delegado falara do lugar onde morava, perto de Formoso, perto de Estrela do Norte. Fiquei na dúvida. E ele, depois, me contou que esteve em dúvida também, se deveríamos ficar no mesmo quarto, por causa da possibilidade de um poder roubar o outro – não é?! Ainda que conversássemos, eu pensei: Será que ele, com esse braço embrulhado, não será muito perigoso? Ele tinha revólver, e eu não... Dormimos juntos e, no dia seguinte, cada um seguiu seu caminho.

Anos depois, quando o encontrei e batizei-o, lá onde morava, então lembramo-nos daquele incidente, ou do propósito de Deus.


XXIV – Goiânia

E eu, procurando um jeito de ir para Goiânia, fui ao Hospital Evangélico de Anápolis, do Dr. Fanstone*, que já estava estabelecido naquela época. O filho dele, que me atendeu, disse que o pai estava para Goiânia; e perguntei se poderia ir com ele, que me deu uma Bíblia, e fomos.

O doutor me deixou na praça principal da cidade, perto de um hotel, onde arranjei um quarto, já começando a procurar um lugar melhor para ficar. Foi quando chegou um rapaz e disse:

- Can I help you?

E fiquei assustado que tivesse chegado alguém e me falando em inglês, não é?! Não esperava encontrar um professor de inglês ali, ao meu lado. Ele me ajudou a encontrar uma casa de fundos para alugar.

Aquele professor devia ter percebido, pelo sotaque, quando eu comprava um jornal, que não estava indo muito bem. Porque, realmente, não sei como alguém podia me entender em qualquer coisa, tão difícil me era falar para ser entendido.

Mas ele me ajudou a achar um barracão lá, que resolvi alugar imediatamente; e logo arranjar uma passagem de avião para voltar, que não estava me sentindo bem, com uma gastrite muito forte.

Voltei ao Rio de Janeiro para buscar Dona Ruth, e viemos morar temporariamente em Goiânia, enquanto Brasília tornava-se viva...

Então, ficamos lá doze anos, de 1948 a 1959.

Neste intervalo, eu estudei mais. Fui à Campinas, São Paulo, para um período na Escola de Línguas, a melhor do país, com aulas de fonética, semelhante a estas de linguística aqui em Brasília, hoje.

Mas, iniciarei falando do ministério lá em Goiânia. A história é longa...

* James Fanstone, médico inglês emigrado e radicado em Anápolis desde após a Primeira Grande Guerra. Fundador da Igreja Presbiteriana da Cidade.


XXV – Tudo Tem Início em uma Escola

A nossa casa era em frente ao Liceu de Goiânia, uma pequena casa de fundo, de um só quarto. Somente eu e Dona Ruth. Não tínhamos muito dinheiro para pagar aluguel, e a nossa bagagem não havia chegado ainda. Compramos um colchão, e deitávamos no chão, e começamos lá a fazer um fogão.

Então, ali, iniciamos uma escola; isto é, com aquele mesmo professor de inglês que se ofereceu para nos ensinar português, ao pedir que ensinássemos inglês para ele, que já falava, mas não tem bem realmente.

Contudo, estudamos com ele alguns meses. E, no mês de setembro, chegaram lá duas crianças, para ouvir a nossa língua, ou, não propriamente isto, mas pedindo trabalho, e, eu devo ter estranhado...

Não sei por que aconteceu assim, mas Deus sabe por que estas crianças chegaram ali, falando e pedindo trabalho.

Achamos que deviam vir trabalhar, se bem não precisássemos de duas crianças trabalhando para nós... Mas, eram crianças.

E vinham de Vila Nova. Não tinham leitura; nem sabiam ler e, depois, trouxeram outras crianças com elas. Finalmente, dissemos que poderíamos ensinar-lhes a ler. Loucura – não é?! – ensinar se não poderíamos falar...

Mas, começamos a ter uma escola à tarde, quase todos os dias da semana. E chegaram quatro, seis, várias crianças.


XXVI – Nasce a Primeira Igreja de Cristo

E pensamos que deveríamos oficializar aquilo, e ter algo no domingo. Loucura, também – não é?! Ainda não falávamos bem a língua. Mas, acho que não queríamos começar logo pregando publicamente.

Assim, num domingo, nós os convidamos para que trouxessem seus colegas de novo. Mas só duas crianças chegaram – um rapaz e uma moça – que, penso, eram irmãos, naquele primeiro domingo. Falamos para que eles convidassem mais colegas para vir e também participassem da oração. E oramos, e tentamos ensinar histórias bíblicas para eles, em lugar de somente ler.

No segundo domingo, tinha doze crianças. E pensei: Que grande crescimento, não é?!

Mas, foi crescendo para vinte, vinte e cinco crianças, e já não tinha mais lugar: o quarto e a sala eram pequenos, tipo barracão.

Então, fomos com as crianças lá em Vila Nova ver onde moravam, e procuramos um lugar perto de suas casas. Também ali, as casas tinham salas bem pequeninas. E sugerimos iniciar a escola para ensinar leitura.

Por fim, encontramos um local perto daquele pessoal, daquelas crianças, numa esquina, e alugamos. Conseguimos permissão para derrubar uma parede, fazer uma sala maior, e começar uma escola e cultos...


XXVII – Os Primeiros: Adoção e Batismo

Nesse intervalo, depois de algum tempo, uma dessas crianças, uma menina, disse que tinha um irmão que o pai abandonara, e queria dar esta criança para nós criarmos.

Bom, isso foi chocante também. E fomos visitar o lar, a avó que estava criando a criança. Havia a mãe, mas o pai fora para as minas de ouro e desaparecera, disseram-nos, e insistiram para que cuidássemos da criança. Naquele momento, pessoalmente, nós não queríamos; mas eles estavam dispostos; todos eles estavam sozinhos. E levamos aquela criança.

Pensamos que deveríamos fazer tudo legalmente, no cartório, mas disseram que podíamos adotar até ter cinquenta anos, naquela época. Então assinamos um documento que não era de adoção, mas uma autorização para criar.

Esta criança ficou conosco até quase os dezoitos anos; então, quis casar-se e eu disse que não podíamos autorizar... Isso por quê? Não por falta de piedade, mas porque éramos muito legalistas naquela época.

Já tínhamos nosso primeiro filho, Starla já nascera.

Este rapaz, quando íamos para a escola domingo pela manhã, passando pela igreja católica onde havia uma estátua de Jesus ou Maria, parece-me, ele sempre indagava alguma coisa.

Dona Ruth e eu tínhamos o costume, em casa, de tomar a ceia sozinhos, ele via isto e sempre perguntava por que estávamos tomando, e dizíamos: Isto é para os crentes em Jesus Cristo. Tentamos ensinar isto a ele, que queria tomar a ceia, e achávamos que ainda não podia...

Então, ele quis saber como poderia saber quando poderia tomar. E o encorajamos, de que ele deveria ser crente. E ele disse: Eu creio, e aceito Jesus, e quero ser batizado. Finalmente, o batizamos ainda bem jovem. Não era contra a nossa crença, mas ele quis tanto ser batizado que achamos não devíamos negar. Realmente, ele foi o nosso primeiro batismo.

As crianças da escola assistiram e acharam interessante; não é?! E, então, ele começou a tomar a ceia conosco em casa.


XXVIII – A Igreja de Cristo de Vila Nova Nasce

Logo, na escola, já tinha alguns convertidos; arrumávamos alguns adultos para ensinar e ser professores, e havia os cultos.

Lembro-me que comecei a dar as mensagens dos cultos. Mesmo não conhecendo muitas palavras, acertei com Dona Ruth fazer desenhos no quadro com giz a cores, com a história de Jonas, e preparei umas dez mensagens sobre o livro. Ruth ia desenhando a história de como Jonas correu de Deus, e foi do navio lançado ao mar; e, assim, eu ia contando...

Foram meus primeiros sermões. Mas, com as pregações lá, pessoas começaram a se batizar, e só uns dois anos depois é que fui ver que aquela sala não cabia o pessoal que assistia aos cultos e à escola dominical. Também foi desenvolvida a classe das crianças.

Então, havia um lote disponível lá, no meio da estrada (onde a igreja está, agora, é uma estrada) e fiz um requerimento à Prefeitura de Goiânia por aquele lote. Um engenheiro teve simpatia por nós, e arrumou-nos o lote junto à Prefeitura. Começamos a cerca-lo. Aí precisaram fazer outra estrada...

Orei a Deus, e fiz um pedido à Igreja dos EUA para ajudar com alguns fundos, e construímos aquela primeira igreja que é parte da que está lá agora. A inauguração foi entre 1953 e 1955, aproximadamente.


XXIX – A Expansão e Criação do Primeiro Seminário

Demorou um pouco esta mudança de local para abrirmos uma nova capela.

Um policial que fora afastado da sua igreja, mas que renovara e consagrara outra vez a sua vida, junto a outro policial convertido e batizado, eram professores que nos ajudavam nas escolas. Pois, um destes, tinha uma casa em Vila Nova, a pequena distância, e começamos a ter cultos também na casa dele. E, para ter esses cultos, construímos uma sala ao lado da casa.

Então ele ficava pregando lá e, nós, na outra; isto é, em duas casas, ao mesmo tempo.

Também havia alguém da Avenida Anhanguera que nos assistia. Fomos a casa dele para pregar por algum tempo, e abrimos uma capela permanente em sua casa para os cultos.

Nesse intervalo, mudamos da casa em frente ao Liceu para uma casa de adobe*, no bairro de Botafogo. Compramos a casa – um barraco quase – não tinha esgotos; na época, eram as fossas. De qualquer maneira, mudamos para lá, e começamos a fazer visitas.

Todos estes lugares necessitavam, então, de um prédio para os cultos, que foi aquele construído em Vila Nova, a primeira Igreja. Depois, continuamos expandindo em outros setores, a partir de certas casas.

Aí é que apareceu o Pr. Luiz Lira, que morava no Gama (já falecido, né?!). Encontrei-o, já não me lembro bem como; fora convertido perto da estrada-de-ferro, e chegara lá em Goiânia (finalmente tinha chegado lá o trem). Sei que começamos a ter cultos na casa dele – agora convertido mesmo! – em Vila Nova, regulamente. E também cultos numa casa no bairro da Fama e, assim, em diversos lugares.

Esses, com o tempo, desenvolvendo os trabalhos, tornaram-se igrejas. Eram, então, tantos grupos que iniciamos, também na Igreja em Vila Nova, nosso primeiro Instituto de Treinamento de Obreiros. Os jovens, treinados lá, íamos levando, nas tardes de domingo, para evangelizar nos diferentes setores.

Nos fundos da Igreja em Vila Nova, alugamos um barracão e, depois, outro para dormitório. Isso, por volta de 1960, 1961. Tínhamos, então, um Seminário, ou Instituto Bíblico.

*Tijolo cru seco ao sol.


XXX – O Nome da Igreja: O Ideal da Restauração

Lá nos Estados Unidos, onde nasci, as igrejas eram chamadas “Igrejas de Cristo”. Digo, das seis igrejas que formavam a comunidade onde nasci, três se chamavam Igrejas de Cristo, e as outras três, Igrejas Cristãs.

A tradição era o ideal do Movimento de Restauração da Igreja: a formação de igrejas que usassem os nomes bíblicos e, tanto quanto possível, usando o ideal do movimento para escapar de ser separatista. Isto é, não queria ser uma separação, uma igreja separada das outras como tradicionalmente ocorria entre as igrejas cristãs da época.

A ideia nascera quase duzentos anos antes, em 1801, em “Kane Hide”, através de um avivamento no leste dos EUA... Houve, na época, várias campanhas evangelísticas em massa. Vários homens de Deus acharam bom acabar com o denominacionismo; e se ajuntaram, e formaram uma igreja sem dizer que era uma denominação, mas formaram uma “associação de Igrejas”, em lugar de “Igrejas”.

O ideal era uma formação sem organização denominacional, e sem leis denominacionais ou regras. Era para a Igreja se unir em torno dos principais fatos bíblicos; se são convertidos, a posição de união deve ser pela conversão bíblica.

E eles (alguns deles) eram presbiterianos e metodistas; outros, batistas, que se uniram e, entre ideias, concluíram todos que o batismo deve ser pelo sistema de imersão.

Mas, não só este ponto fora obrigatório: também toda pessoa que confessa Jesus como Salvador e Senhor de sua vida deve ser reconhecido como irmão.

É uma espécie de unidade, não é?! Este ideal começou a crescer aqueles dias, abrindo novo e grande avivamento no país, que deu a ideia de todos se associarem. Naturalmente, com o crescimento, esses grupos se reuniram para convenções, congressos e campanhas evangelísticas.

Mas, o grande início foi demonstrado quando ocorreu uma convenção ao ar livre, em Kane Hide, e várias igrejas estavam ali juntas. Uns pregavam de um lado, outros de outro; e houve uma unidade e um avivamento real entre as pessoas.

Depois, todos eles voltaram para suas casas, pensando sobre o que estava acontecendo, e começaram a sentir que precisavam formar um plano de unidade, de trabalharem reconhecendo-se uns aos outros como irmãos. Achavam que Jesus ia reconstruir a sua Igreja, e que o nome desta deveria ser bíblico. E tem no mínimo um lugar onde está escrito “as Igrejas de Cristo vos saúdam”, não é?! E, aí, o nome da Igreja de Cristo nasceu.

Junto com esta, nasceu a Igreja Cristã, congregacional; mas, todas, com o pensamento de restaurar somente o ideal bíblico original. E, naturalmente, é que isto chegou até mim, onde nasci...


XXXI – O Registro da Primeira Igreja

Por fim, quando cheguei ao Brasil, pensei em usar o termo Igreja Cristã, mas havia uma outra com o nome semelhante em Goiânia, que não nos apoiara muito, como também uma igreja tradicional não apoiou: achavam que já havia missionários bastante lá na cidade, e que era melhor se eu fosse para outro lugar.

E eles já tinham registrado os seus nomes, não é?! E, então, lembrando que minha igreja na cidade onde eu crescera chamava-se Igreja de Cristo pensei em usar este para o nome oficial. Legal!

Assim, foi registrada a primeira Igreja de Cristo em Goiânia, em lugar de qualquer outro nome. Especialmente porque eu gostei, mas também porque era este o antigo ideal, ainda que tivéssemos nos EUA outros grupos, como os não-instrumentais*.

Lá, a Convenção era chamada de Discípulos de Cristo, mesmo que fosse a instância superior, enquanto os não-instrumentais já tinham um tipo de ministério desenvolvido separado. Contudo, nós, então, registramos com o nome Igreja de Cristo.

* Tem Igreja de Cristo no Distrito Federal, não-Instrumental, 703/704, no Plano Piloto, Asa Norte, Brasília – DF.


 XXXII – O Cumprimento da Visão de Brasília

Convertido, Luiz Lira e sua família, ele começou a ser um grande testemunho em vários lugares. Por esta época, de desenvolvimento de sua conversão, já estávamos planejando várias coisas a respeito de Brasília. Sendo que esta era a nossa primeira visão ao vir ao Brasil: vir para o Distrito Federal, a Capital. Assim, pensávamos estar em Goiânia só até a capital ser inaugurada, a porta aberta para um trabalho em Brasília.

Então, durante este tempo, tínhamos escrito e enviado um ofício a Brasília pedindo por um lote para uma igreja aqui. Queríamos fazer uma campanha para levantar fundos para a construção da Igreja em Brasília.

E, nesse intervalo, depois de dois anos, recebi uma resposta, um ofício, dizendo que não lhes fora possível doar um lote.

Por fim, comecei a viajar a Brasília para falar com as autoridades. Mas, antes, um grupo de nossos irmãos tinha vindo aqui, feito um pedido, e ganharam o registro de Requerimento Número 001 para o lote na cidade. Contudo, ainda não fora escolhido o local.

Eu começara a fazer requerimentos e trabalhos, no início do Núcleo Bandeirante; e, nesta época, em que negociava para o lote em Brasília, Luiz Lira mudou-se para o Núcleo Bandeirante, onde começou a ter cultos em sua casa. Eu o visitava e pregava lá, de vez em quando, iniciando um trabalho.

Entretanto, ainda sem lote em Brasília, visitamos Willian Loft, em Taguatinga, onde iniciara um trabalho em sua casa, e fizemos um ponto de pregação  no lote lá, já que o lugar estava em grande crescimento. Ali, finalmente, foi construída uma boa capela (atualmente é a Igreja de Cristo em Taguatinga – Sandú Sul) para os trabalhadores, junto a casa dele. Isto, por volta do ano de 1959.

Eu e Ruth mudamos para lá em fins desse ano, numa casa perto da igreja, e sempre vínhamos ao Plano Piloto para localizar um lote, que já estava escriturado.
Enfim, foi-nos autorizado ir ao Rio de Janeiro para escolher o lote para Igreja. Fui e escolhi este na entre quadra 305/306 da Asa Sul. Voltei para escriturar e registrar, e descobri que precisaria ir a Planaltina retirar outra escritura, o que fiz.

Amigos em Goiânia conseguiram a autorização para liberar um documento de isenção de impostos de transmissão, e registramos gratuitamente. Mas, estava registrando no estado de Goiás, porque o Distrito Federal ainda não fora inaugurado. A escritura definitiva só veio a sair um mês antes da inauguração da cidade, em 1960.

Eu queria esta escritura para, depois da inauguração, poder viajar para os Estados Unidos, e conseguir apoio para a construção. Porque pensei: Não posso pedir dinheiro sem o lote.

Assim, no dia da inauguração de Brasília, tivemos o primeiro culto lá, no lote, ainda sem uma boa construção.


XXXIII – A Inauguração da Igreja em Brasília

Em 21 de abril, foi inaugurada a cidade e inaugurado lote, oficialmente, com a placa colocada no lugar onde a igreja seria construída. Convidamos irmãos de Goiânia e outros lugares para participar. Naturalmente, muitas pessoas já vinham à Brasília para inauguração da cidade, mas convidamos um bom número de pessoas.

Vários irmãos vieram de Goiânia visitar os apartamentos, pesquisar e proclamar aqui o nome de Jesus. E, em meados do ano, naquele mesmo lugar, inauguraram uma capela para os cultos regulares.

Inicialmente, a igreja desenvolveu-se aqui com outro missionário (Ary Scates) vindo dos EUA porque, em abril, logo depois da inauguração da cidade, eu viajei para a América do Norte em companha de visitas e pedidos de ajuda para construção do templo. Este irmão que esteve aqui construíra uma capela no lote, e logo no ano seguinte, em 1961, foi colocada a pedra fundamental, embora já tivéssemos inaugurado o local no ano anterior.

A capela, usamos como templo por quatro anos ou mais, e, tanto na frente como nos fundos, construímos salas de aula, onde tínhamos uma escola e um principio de alfabetização de adultos.

Aqui, no Distrito Federal, a Igreja de Cristo nasceu primeiro em Taguatinga, onde, logo depois, o missionário convidou Luiz Lira para ajudá-lo. Em seguida, outro missionário chegou aqui, Bill Metz, mas, como não estava bem desenvolvido, convidou Luiz Lira para trabalhar com ele, no Gama, onde iniciou o trabalho da igreja no Gama. Eu sempre ia lá também ajudar, enquanto trabalhava aqui, no Plano Piloto, desenvolvendo o trabalho com outro missionário.

Fiquei nos EUA pouco mais de um ano, esperando ganhar mais fundos, e voltei em 1961. Então, inauguramos aquela primeira etapa da Igreja do Plano Piloto, só com a entrada e a galeria que usamos para os primeiros trabalhos e os cultos, na parte de baixo.

Depois, veio a construção mais demorada, de dois andares, para escola e para uso da Missão Cristã no Brasil, onde hoje está a Faculdade*. Assim, quando o Instituto Bíblico, em Goiânia, fechou por alguns anos, abrimos aqui a Faculdade Teológica.

Em Goiânia, não era para ser Faculdade, só Seminário, e os irmãos acharam melhor inaugurar aqui a Faculdade. A diferença entre eles era que esta daria o grau de bacharelado, enquanto o outro apenas o diploma de graduação normal. Não havia grande diferença.

Temos, na FTCB, diversos cursos que abrangem uma Faculdade Cristã, e não somente Teologia.

*FTCB – Faculdade Teológica Cristã do Brasil, EQS 305/306, anexa à Igreja de Cristo em Brasília.


 XXXIV – A Relação com a América do Norte

Anteriormente, houve missionários norte-americanos que, oficialmente, deixaram a Igreja de Cristo e associaram-se às Assembleias de Deus, ou então começaram algumas Igrejas de Cristo Pentecostais no Nordeste. Sempre tive vontade de visitá-los para saber como estão no ideal de restauração.

Bem, das Igrejas de Cristo dos EUA algumas têm-me sustentado, não só as de Cristo, mas as Cristãs, que são de uma mesma Convenção. As congregacionais e as de Cristo são unidas na Convenção, mas cada igreja é independente, quer dizer, não tem estrutura denominacional.

O único relacionamento que existe entre lá e aqui são correspondências e a visita de pastores. Cada ano um pastor vem ao Brasil pregando e visitando as igrejas.

Quanto aos missionários, nós temos aqui uma autorização para a Faculdade Teológica, em que, a cada ano, pedimos um pastor americano, trazendo mensagem ou estudos para esta, além de, outras vezes, trabalhos especiais.


XXXV – Homens de Deus Memoráveis

Lembro-me de ter convivido com muitos obreiros nesta vida de trabalho para Deus. Alguns já estão falecidos. Outros continuam, como obreiros. É o caso do irmão Ozório* que se converteu, com sua família, isto é, a mãe e alguns de seus irmãos.

Ele foi nosso primeiro aluno aqui em Brasília, na escola que iniciamos na chácara (Pró – Vida), junto com outros dois. Um deles está agora aposentado, mas trabalha na Igreja em Vila Nova, cuida da primeira igreja em Goiânia, sua família junto com ele. Foram três alunos morando lá na chácara. ( Walter, Herculano e Ozório)

Esta escola foi um fruto do nosso trabalho patrocinado pela Missão Cristã do Brasil, da qual eu era presidente. Na época, tanto para o lote da chácara como para o lote da igreja, foram feitos os requerimentos ao mesmo tempo.

A ideia da Escola Rural, no sentido de assistência social, era a de preparar crianças de 13 a 15 anos, interessadas em estudar o Evangelho, mas que não tinham a idade para a Faculdade ou Seminário.

Lembro ainda do Pr. Iran; bem que eles não foram convertidos só por mim, porque trabalhamos em conjunto, e foram muitos com quem eu trabalhei. Lázaro Valadão, com quem fiz a primeira viagem no trem e foi para Estrela do Norte, naquela época, segue o Evangelho fielmente. Pr. Marques é o neto de um dos primeiros convertidos...

Um irmão muito distinto foi Florisvaldo, já falecido. O filho dele (Pr. Valdeberto) está pastoreando uma igreja em Goiânia.

Mas, estes meus primeiros anos foram dedicados mais para o lado do professorado no Instituto, na Escola, Seminário e aqui, na Faculdade.

Temos mantido contato com vários destes pastores citados, como o Pr. Edson**. Fiz a ordenação dele, não fui diretamente participante em sua conversão, mas, pelo trabalho de professor e dirigindo o seu estágio – não é?! – tive pequena, alguma pouca influência sobre ele, o pastor da Igreja de Cristo em Taguatinga.

Lembro-me também do Pr. Moisés, da Igreja de Cristo de Luziânia, que esteve no Instituto Bíblico de Goiânia...

Foram vários. Até um que, hoje, é pastor da Igreja Batista... E outros muitos indiretamente; mas, assim, diretamente, não me lembro. Sinto, antes que por alguma influência, que Deus tem levantado vários que estão trabalhando firmes. Uns são conhecidos evangelistas, outros pastores fiéis no trabalho, como Pr. Marinho*, que está desenvolvendo bem nesses últimos anos, um dos primeiros formados na Faculdade Teológica aqui em Brasília.

*Pr. Ozório Gonçalves, formado em Estudos Sociais pela UPIS; História do Brasil, Faculdade Católica de Goiás; História Universal, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Minas Gerais; é o atual Reitor da FTCB.
** Pr. Edson Pereira de Gouveia, Bacharel pela Faculdade Teológica Batista de Brasília; professor da FTCB.


XXXVI – As Igrejas Fundadas

Do mesmo modo, na fundação das igrejas, ainda que eu tenha tomado parte, iniciando várias delas, a maioria tem sido desenvolvida por outros obreiros.

Em Goiânia, iniciamos a primeira igreja, em Vila Nova; depois, no bairro Universitário, na Fama, onde Thomas Fife trabalhou muitos anos, seu filho* trabalhou, e presentemente Gerson** é o pastor, o qual conheci desde bem pequeno. E a Igreja do Setor Bueno, que iniciei, logo com outros tomando conta para a gente, não é?!

Todas iniciei no sentido de lá plantar a semente...

Em Luziânia, fui no início; ajudei muito em Taguatinga, muito no Gama, e, Ceilândia, iniciei junto com os outros pastores brasileiros.

Agora, recordações mais marcantes, boas ou más... Tristezas realmente tenho tido, com irmãos que têm deixado o Evangelho, afastando-se do ministério. É muito triste  ver a traição, contudo...

* Robert Fife, Mestre em Teologia pelo Johnson Bible Colege, missionário das Igrejas de Cristo em Portugal.
** Pr. Gerson Vicente de Sousa, formado em Física pela UCG.


XXXVII – A Mudança Cultural

Senti saudades dos EUA? Nos primeiros anos pode ser que senti, mas não fiquei consciente do fato, do que talvez estivesse acontecendo.

Em tudo foi – como posso dizer – uma barreira para enfrentar o susto.

Lembro que tive algumas experiências dolorosas, outras, naturais. No tempo do Natal, quando senti falta das igrejas americanas, isso me deixou um pouco triste, ficava, às vezes, de mal humor.

Mas acho que, depois de mais tempo, senti a transição, o tempo de transição, talvez da falta de família e amigos. E, tanto Dona Ruth como eu, não temos tido sustos emocionais desta natureza.

Sinto que não ocorreram tão grandes coisas, mas estivemos e estamos sempre preparados para resistir a qualquer sentimento emocional... E, por fim, idealmente, temos tentado ser mortos para as nossas emoções. O que, realmente, é estar mortos para nós mesmos, não é?!

Se tivemos (e sem dúvida tivemos) nem percebemos, nestas épocas como Natal, aniversários, que tenho procurado não preocupar, nenhum tipo de depressão. Não estou me lembrando de incidentes destes.


XXXVIII – Ser Missionário no Brasil

Bem, eu sinto que aprendi muita coisa sobre como ser missionário. E também, muita coisa sobre as verdades a serem apresentadas e opiniões, preconceitos, que a pessoa tem.

Antes – eu pensava – tinha ideias da necessidade do Evangelho, de maneira diferente do que atualmente é preciso.

Porque quando as pessoas falaram em trazer Cristo, parece que eu ouvi:

- "Guarda a sua religião e traga Cristo.”

E pensei em trazer a pregação, trazer Cristo. O que, então, alguns já tinham feito. Mas, foi uma época quando a imaginação começara mais para o interior do Brasil, e alguém me falou isto. (Talvez o próprio Espírito de Deus).

Todo mundo já conhecia bem o nome de Deus, que não era uma coisa desconhecida aqui. É muito diferente de que se fossem indígenas ou tribos que nunca tivessem ouvido falar de Jesus.

Não se  isto explica, mas o trabalho missionário é como “mais e mais”... E não é só apresenta-lo pela primeira vez. Então – e por isso também – tenho enfatizado o treinamento de obreiros para formar igrejas.

O trabalho deve ser mais voltado para formar igrejas, organizá-las, reunindo grupos, do que apresentar Jesus pela primeira vez, ainda que contenha as duas coisas, não é?!...

Assim, então, encontramos ressentimento entre muitos católicos, porque diziam já serem batizados... Por fim, graças a Deus, alguns encontraram mais problemas do que eu, que quase não tive oposição.


XXXVIX – O Confronto Espiritual em Trindade

Falando disso, lembro-me de uma ocasião, em Trindade – GO. Tive a loucura de ir lá vender Bíblias na festa católica, a Festa de Trindade. Levei um grupo de jovens e tentei passar a vender a Bíblia entre o povo.

Paramos com o Jeep em um lugar bem destacado no meio do povo, descemos e montamos uma peça lá, e tocamos acordeom, cantamos alguns corinhos e comecei a apresentar a Bíblia, oferecer para vender.

E um padre chegou e disse:
- Eu quero ver a sua Bíblia!

Pensei comigo: Bem, será que esse padre quer mesmo ver ou quer rasgar (pois já ouvira falar que numa cidade do Norte a Igreja Evangélica fora perseguida). E dei a ele minha Bíblia, perguntando se queria comprar, bem alto, para todos ouvirem. E ele olhou-a e disse:

- Esta Bíblia é falsa! Não comprem esta Bíblia! E disse mais algumas coisas, devolveu a Bíblia e saiu...

Fiquei meditando bastante sobre aquilo, porque, como é que alguém pode chamar a Bíblia de falsa. Depois, consegui lembrar que a Bíblia católica continha os livros apócrifos*, estes livros que não foram aprovados...

Mas, não vendi nenhuma Bíblia naquele lugar, nem de fato poderia.

Uma outra cidade do interior onde fui, um padre mandou  me avisar para sair da cidade, se bem que ele não apareceu diretamente em minha frente.

Em Aparecida de Goiânia – GO, uma noite, quando estava acabando de pregar, um dos guardas-civis que fora lá comigo, recebeu uma notinha dizendo: “Saia da cidade ou vamos apedrejar vocês”.

Bem que ele só entregou depois que terminou, eu não recebi antes para parar em tempo, mas já tinha parado, e não sei o que teria acontecido se tivéssemos continuado.

Mas em Fama**, não sei se era perseguição ou eram crianças brincando com nosso culto ao ar livre. Em frente à Igreja de Cristo de Fama, fazíamos o culto na porta da igreja antiga. Uma das moças estava cantando lá na frente e alguém jogou pedras.

Ela estava cantando bem, e jogavam pedras e ele não parava e não se importava nada com as pedras passando. Mas, quando voltou para dentro, o sangue escorria pela cabeça dela, uma pedra a tinha machucado.

E eu pensei: Realmente ela estava firme, lcortada por aquela pedra, mas muito firme; não gritou, nem se assustou, e não sei se alguém soube que ela estava ferida.

São coisas que acontecem, incidentes acontecidos de interesse na vida. Ao mesmo tempo, menos para assustar e mais para aumentar a nossa fé.

São pequenas coisas...

*Sem autenticidade, não incluído no Cânon das Escrituras hebraicas e da Reforma.
**Bairro de Goiânia, capital de Goiás.


XXXX – Importância da Auxiliadora

Uma grande coisa é a importância da esposa. Graças a Deus, tem sido uma esposa muito fiel, de muita fé. Creio, por causa da sua experiência familiar, crente de terceira geração, neta e filha de pastor, uma família toda de obreiros. Ela teve aquela fé de grande firmeza, para enfrentar os problemas da época: vida pastoral, transcultural, problemas financeiros, problemas de saúde e o falecimento de uma criança.

Enfrentamos também dificuldades, como quando uma vez fomos roubados e não sabíamos o que fazer. Mas, naquele tempo, já ganháramos alguns amigos na cidade, e um vendedor, um árabe de boa causa, vendedor de frutas e legumes, que chegamos a conhecer bem, nos emprestou algum dinheiro para passar o mês, porque não havia jeito de comunicar rápido aos EUA, que não tínhamos nada – não é?! – nem ainda uma conta bancária. Havia menos de um mês que estávamos aqui no Brasil, quando isso aconteceu.

Recebi o salário em um dia e, no outro, estava roubado. Eu senti que era certa pessoa, mas não...

Assim, tivemos várias experiências de problemas, dos quais temos sido livres.

Então, graças a Deus por minha esposa, que tem sido tão fiel, e cooperado muito em oração e firmeza. Acertando os problemas da vida, e da comida, com a qual teve dificuldades nas primeiras semanas.

Certa vez, serviram arroz com camarão, e este camarão parecia um bicho da terra que temos lá nos EUA, com a qual os irmãos dela a assustaram muitas vezes. Este bicho, uma espécie de verme que passeia pelo chão, é branquinho e tem a cabeça cor de laranja... E ela comeu aquele arroz com camarão e ficou doente. Terrivelmente doente, porque as emoções, parece-me, operaram nela.

Fomos procurar um médico, não achamos, e ela estava sofrendo muita gastrite. Pensamos em um fortificante, em alguma coisa, e saímos para achar uma farmácia. Mas, nem sabíamos falar a língua para perguntar, e ficamos tentando olhar a palavra farmácia.

Mas, passou, e ela nunca mais gostou de camarão, desde aquela época... Deu um susto em Dona Ruth.

Agora os filhos, estão lutando na fé do Evangelho e, duas filhas, estão aqui no Brasil procurando servir no Serviço Social* e na Igreja. Um filho está na América do Norte, passou uma temporada na Marinha e agora trabalha com computadores. Está como diácono e professor da escola dominical de sua igreja.

* O projeto Integral Pró-Vida, EQS 305/306, prestando trabalhos de apoio às crianças, idoso e desassistido em geral.


XXXXI – A Visão para o Cristão de Hoje

A respeito da visão para o crescimento do Reino de Deus, temos que servir a Deus de tal maneira que a igreja se expanda em toda a terra.

No aspecto missionário, creio que nossa participação da natureza divina de Deus abrange estender o Reino, evangelizar o mundo, estabelecer igrejas e preparar vidas para a paz do Senhor.

No aspecto particular, a igreja em que participamos, no movimento de restaurar a Igreja, está se desenvolvendo muito. A igreja, ou as igrejas estão crescendo, expandindo-se cada vez mais.

Nos primeiros vinte e cinco anos, não se expandiu assim tão rápido, como agora, que parece está-se expandido muito rápido, cada igreja dobrando suas congregações. Todo o ano, estão multiplicando realmente as igrejas.

Pessoalmente, creio que o ideal do Movimento de Restauração, é nos unirmos, a nós mesmos com amor, que o amor é o vínculo da paz.

Um conselho para o Brasil? Gosto muito de um lema que chegou: fé, oração e trabalho. E tenho pensado que devemos reformular isto para o sentido de fé, oração e amor.

São os meios para Igreja crescer e os irmãos agirem: Crer como se tudo dependesse de nossa fé. Orar como se tudo dependesse de nossa oração. Trabalhar como se tudo dependesse de nosso trabalho ou amar como se tudo dependesse de nosso amor.

Eu sinto que devemos continuar procurando conhecer Jesus melhor, e compreender como devemos ser, como é melhor para que sejamos sacrifícios vivos, ou sacrifícios vivos melhores, como ser coparticipantes da natureza divina...

Isto gravou em minha mente como a última perfeição do amor, coparticipantes na natureza divina, de assim edificar as nossas vidas.

Somos co-participantes da natureza divina. Como falou apóstolo Pedro, Deus nos deu todas as coisas necessárias para esta participação na natureza divina que, por fim, vai incentivar-nos a evangelizar o mundo.

Fé, oração e amor, é o lema para as nossas vidas. Crer como se tudo dependesse de nossa fé, como de fato é. Orar como se tudo dependesse de nossa oração, assim como é de fato, e amar como se tudo dependesse de nosso amor.

Eu sou um dos que creem que qualquer coisa pode ser usada desde que não se desvie deste lema.

Entrevista Realizada em 1995